CONHECIMENTO E TRADIÇÃO – Produtores quilombolas de Campos Belos – GO recebem capacitação para ampliar produção e conquistar mercado.

Moradores de comunidade bicentenária Quilombo Cabeçudo recebem formação técnica, equipamentos e orientação para agregar valor a produtos tradicionais e ampliar o acesso ao mercado.

Roberto Naborfazan

Transformar conhecimentos transmitidos por gerações em novas oportunidades de produção e renda é o desafio que mobiliza moradores da comunidade quilombola de Cabeçudo, em Campos Belos, no Nordeste goiano. Produtores rurais do povoado estão participando de uma capacitação que alia os saberes já existentes na comunidade a técnicas de beneficiamento, gestão, comercialização e apresentação dos produtos ao mercado.

A formação integra o projeto Raízes Sustentáveis do Cabeçudo e busca ajudar os participantes a avançar justamente em uma etapa que muitas vezes representa um dos principais obstáculos para os pequenos produtores: transformar o que já sabem produzir artesanalmente em alimentos com maior valor agregado, organização comercial e condições de alcançar novos consumidores.

Farinha, rapadura, hortaliças e açafrão estão entre os produtos cultivados ou beneficiados pelos moradores e que poderão passar por processos de aprimoramento a partir dos conhecimentos adquiridos durante a capacitação.

Até novembro, os produtores participarão de oito módulos que combinam formação teórica e prática. A programação aborda agroecologia, gestão e operação de equipamentos, beneficiamento de alimentos, segurança no trabalho rural, comunicação, marketing e outros conteúdos relacionados à organização da atividade produtiva.

Além de aprender técnicas para melhorar os processos e aumentar a eficiência da produção, os participantes receberão orientações sobre etapas fundamentais para a chegada dos alimentos ao mercado, como embalagem, rotulagem, precificação e organização da produção.

A proposta é fazer com que o conhecimento técnico complemente uma experiência que os moradores já possuem há muitos anos.

O presidente da Associação da Comunidade Quilombola e Povoado Cabeçudo, Eliardo Alves de Oliveira, explica que saber produzir não significa, necessariamente, estar preparado para comercializar de maneira competitiva.

“O pessoal já sabe fabricar, mas muitas vezes não tem a prática de negociar. Com o estudo e os novos equipamentos, vamos aprender a ter uma produtividade maior e colocar o rótulo certo para fornecer para o comércio local”, afirmou.

Capacitação pode aproximar produção e mercado

A fala de Eliardo resume um dos principais objetivos da capacitação: diminuir a distância entre a produção artesanal e o consumidor.

Para pequenos produtores rurais, etapas como definir corretamente o preço de venda, apresentar o produto, calcular custos, organizar quantidades, padronizar embalagens e atender às exigências necessárias para a comercialização podem ser tão importantes quanto o próprio processo de produção.

É justamente nesse ponto que a formação pretende atuar.

Ao adquirir conhecimento sobre gestão e mercado, os produtores podem melhorar a maneira como apresentam aquilo que produzem, identificar oportunidades comerciais e buscar maior valorização para alimentos que já fazem parte da rotina produtiva da comunidade.

Uma das participantes, Andréia Alves de Oliveira Serafim, já produz para a própria comunidade e vê na formação uma oportunidade para dar mais visibilidade ao trabalho e compreender melhor o funcionamento do mercado.

“Esse projeto vai ser muito importante pra gente, porque vai ensinar a lidar com várias situações de mercado. No curso vamos aprender a precificar e vender nossos produtos e os recursos vão ajudar a construir a sede da nossa comunidade”, destacou.

Para Juarez Serafim dos Reis, também morador do povoado, a possibilidade de geração de renda foi uma das razões para participar.

“O projeto chega pra somar. O primeiro encontro já foi muito bom, espero aprender muita coisa e ter ainda mais proveito durante o curso”, disse.

Conhecimento aliado a equipamentos

A capacitação não ficará restrita às aulas em sala.

Os encontros acontecem principalmente aos finais de semana, na sede da associação quilombola, e utilizam inclusive maquinário industrial disponibilizado pelo Instituto Federal (IF) de Campos Belos.

O contato direto com os equipamentos permite que os participantes aprendam não apenas os conceitos envolvidos no beneficiamento dos alimentos, mas também procedimentos de operação, segurança e organização da produção.

Essa combinação entre conhecimento e estrutura física é importante porque amplia a possibilidade de aplicação prática do que é ensinado durante o curso.

Com equipamentos adequados e treinamento para utilizá-los, os moradores podem aperfeiçoar etapas de processamento que anteriormente eram realizadas de maneira essencialmente artesanal, aumentando a capacidade produtiva e buscando maior padronização dos alimentos.

O processo, entretanto, não significa abandonar os conhecimentos tradicionais da comunidade. A proposta é justamente utilizar técnicas e ferramentas atuais para valorizar aquilo que já é produzido pelos moradores.

Cerca de 140 famílias vivem da agricultura na comunidade de Campos Belos, onde projeto busca agregar valor à farinha, rapadura, hortaliças, açafrão e outros produtos. FOTOS: Divulgação.

Comunidade bicentenária vive da agricultura

A capacitação ocorre em um território marcado por uma história de aproximadamente dois séculos.

Certificado pela Fundação Cultural Palmares, o Quilombo Cabeçudo reúne cerca de 140 famílias, grande parte delas ligada à agricultura e às atividades desenvolvidas no próprio território.

O nome da comunidade tem relação com a vegetação encontrada na região. O povoado cresceu em uma área onde havia grande quantidade de coqueiros conhecidos pelos moradores como “cabeçudos”, denominação que acabou sendo incorporada à identidade da localidade.

Ao longo das gerações, o cultivo da terra e a produção de alimentos ajudaram a sustentar as famílias e preservar práticas vinculadas à história da comunidade.

Nesse contexto, a capacitação assume uma dimensão que vai além do aprendizado de técnicas de produção. Ao possibilitar que os moradores agreguem valor ao que cultivam e produzem, a iniciativa também pode contribuir para fortalecer a permanência das famílias no território e criar alternativas econômicas ligadas às próprias vocações da comunidade.

Da produção artesanal ao produto com valor agregado

Um dos conceitos trabalhados pelo projeto é o de beneficiamento.

Na prática, significa fazer com que uma matéria-prima produzida no campo passe por etapas capazes de aumentar seu valor comercial. Em vez de vender apenas o produto in natura ou de maneira informal, o produtor pode processá-lo, padronizá-lo, embalá-lo e apresentá-lo de forma mais adequada ao consumidor.

No Cabeçudo, esse processo pode alcançar produtos que já fazem parte da produção local.

Para que isso ocorra de maneira sustentável, no entanto, equipamentos sozinhos não são suficientes. É necessário saber calcular custos, organizar a produção, controlar a qualidade, definir preços, apresentar o produto e identificar os canais de comercialização.

Por isso, a formação trabalha diferentes áreas de conhecimento dentro de uma mesma proposta.

Valorização dos saberes tradicionais

O projeto Raízes Sustentáveis do Cabeçudo foi selecionado na segunda edição do Edital Diálogos, iniciativa do Instituto Equatorial voltada ao financiamento de ações de empreendedorismo, educação, inclusão social e sustentabilidade.

A executiva em responsabilidade social do Instituto Equatorial, Janaína Ali, avalia que a união entre capacitação e conhecimento tradicional é um dos principais pontos da iniciativa.

“O Edital Diálogos nasceu para apoiar projetos que geram transformação real. Ao unir a capacitação teórica com a formação técnica e prática, o ‘Raízes Sustentáveis’ não só preserva os saberes tradicionais, mas cria uma estrutura sólida para a inclusão social e o desenvolvimento econômico da comunidade”, afirmou.

Desde sua primeira edição, o Edital Diálogos destinou aproximadamente R$ 7 milhões a 256 projetos, que, segundo o Instituto Equatorial, alcançaram cerca de 135 mil pessoas nos sete estados onde o Grupo Equatorial atua: Maranhão, Pará, Piauí, Alagoas, Goiás, Amapá e Rio Grande do Sul.

Em Goiás, a iniciativa está na segunda edição e contabiliza mais de 30 projetos apoiados, com investimentos superiores a R$ 1 milhão e impacto direto informado de mais de 8,5 mil pessoas.

Formação segue até novembro

O processo de capacitação dos moradores do Quilombo Cabeçudo continuará nos próximos meses.

Após a conclusão dos oito módulos, os participantes também farão uma visita técnica a uma unidade de beneficiamento considerada referência na região. A atividade permitirá conhecer de perto uma estrutura produtiva em funcionamento e observar como conhecimentos semelhantes aos trabalhados durante a formação são aplicados na prática.

A conclusão do curso e a formatura dos participantes estão previstas para novembro.

Mais do que encerrar uma sequência de aulas, a expectativa é que o fim da capacitação marque o início de uma nova etapa para produtores que já dominam os saberes da terra e da produção artesanal, mas agora buscam também ferramentas para organizar, valorizar e comercializar melhor aquilo que nasce dentro da própria comunidade.

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