SAÚDE EM ALERTA – Sem salários, médicos param parcialmente e crise hospitalar explode em Alto Paraíso de Goiás.

A crise na saúde pública de Alto Paraíso de Goiás ganhou novos contornos nesta semana após médicos do Hospital Municipal Gumercindo Barbosa manterem uma paralisação parcial em protesto contra atrasos salariais que, segundo a categoria, chegam a seis meses. Vereadores exigem providências imediatas para garantir atendimento digno à população.

Roberto Naborfazan

A situação da saúde pública em Alto Paraíso de Goiás, município polo da Chapada dos Veadeiros, no nordeste goiano, voltou a ficar em evidência, de forma negativa, nesta semana.

Depois que vídeos mostrando supostos alimentos contaminados e a presença de ratos no interior do Hospital Municipal Gumercindo Barbosa, começaram a circular em redes sociais, a população, em sua maioria, resolveu mostrar seu descontentamento com o gerenciamento feito pela Organizações Sociais de Saúde (OSS) Instituto alcance Gestão em Saúde, em parceria com a prefeitura do município, por meio da Secretaria de Saúde.

São vários os comentários feitos por moradores, muitos deles isentando os funcionários, mas cobrando melhorias por parte dos gestores. Vejam alguns desse comentários logo abaixo.

A situação se agravou na quarta-feira, 10, quando o corpo médico que atende no hospital municipal alertou que paralisaria suas atividades, com restrição nos atendimentos, se não fossem quitados os salários que estão atrasado desde janeiro deste ano para alguns, e desde fevereiro, para outros.

O prazo limite dado para a quitação dos salários foi até nesta sexta-feira, 12, as 16 horas.

Por telefone, a reportagem do Jornal O VETOR falou com a doutora Patrícia Rezende, diretora clinica do hospital. De acordo com a médica, que estava em trânsito para Alto Paraíso de Goiás, onde assumirá o plantão médico deste final de semana, houve uma reunião entre os médicos e os gestores do município.

Ainda de acordo com a médica, na reunião, a gestão municipal pediu mais um prazo de dois dias, ou seja, até a próxima segunda-feira, 15, para que seja liquidado parte dos débitos em atraso, mas não houve acordo e a paralisação restritiva foi mantida, ou seja, apenas casos de urgência e emergência serão atendidos.

Vídeos e comentários

Desde o início da semana começaram a circular em redes sociais vídeos mostrando supostas irregularidades, principalmente de higiene, nas dependências do Hospital Municipal Gumercindo Barbosa.

Como o Jornal O VETOR não tem autorização para mostrar o autor dos vídeos, fizemos prints de algumas imagens para ilustrar o que foi denunciado.

Primeiro foram imagens em que um suposto paciente do hospital mostra que lhe foi servido um pão com larvas.

Paciente alega que pão servido estava com larvas. FOTOS: Reprodução redes sociais.

Depois, em outro vídeo, um rato é mostrado circulando pela recepção da unidade hospitalar.

Rato aparece na recepção do hospital. FOTOS: Redes Sociais.

A diretora-geral do Hospital Municipal Gumercindo Barbosa, Núbia Fernanda de Castro, por meio de notas, contesta as denuncias.

Veja o posicionamento em relação aos alimentos. 

A diretora se posiciona também em relação a presença de ratos.

Veja algumas das reações e comentários em grupos de WhatsApp que nos foram enviados. Por segurança, omitimos os nomes dos autores.

“Já fiquei internada lá não comia nada de lá jogava tudo fora. Comida, lençol, coberta, levei tudo de casa.”

“Lembrei quando meu marido, hoje falecido, estava internado. Passamos por cada coisa. É triste viu. Paciente diabético, e vinha pão recheado de manteiga, café com açúcar. Nunca vi tantas coisas erradas ao mesmo tempo. Porém tem profissionais maravilhosos!!”

“Nossa cidade é uma total vergonha. Uma cidade turística, meu Deus, cadê as autoridades. Prefeito, vereadores, que não toma Providência?”

“No meu modo de pensar, é a pior gestão é essa que nós estamos passando.”

“Em 35 anos de Alto Paraiso, nunca vi tanto descaso com o povo. Que vergonha …não estou falando dos profissionais que trabalham nessa nojeira, e sim dos administradores. Que horror!!”

“O prefeito que elegemos 🤨.”

“Vamos reclamar sim, gente! Até porque a secretária de saúde, Helena Gomes, está no grupo. Quem sabe lendo as mensagens ela não toma uma providência.”

“Verdade porque os profissionais são maravilhosos.”

“Tanto os profissionais, quanto os pacientes, não merece passar por isso. É um descaso muito grande.”

“Não mesmo, triste realidade 😔.”

Problemas antigos.

As reclamações da comunidade e os atrasos de pagamentos não são fatos recentes. Desde que a prefeitura assinou o contrato de gestão compartilhada com o Instituto alcance Gestão em Saúde, em agosto de 2024, os problemas são recorrentes, sendo debatidos em reuniões, nas sessões do legislativo municipal e até em audiência pública.

Em março de 2025, a equipe médica já se manifestava, com pedido de socorro a comunidade, por estarem com aproximadamente três meses de salários atrasados.

Em reportagem do Jornal O VETOR, publicado no dia 21 de março de 2025, replicamos postagem de um representante da equipe médica com o seguinte teor:

“Em nome dos médicos do Hospital de Alto Paraíso, venho fazer um apelo à população. Estamos entrando no terceiro mês sem receber nosso salário, mesmo trabalhando dia e noite para atender todas as emergências da região. Atendemos acidentes de trânsito, picadas de animais peçonhentos e diversas urgências médicas que chegam ao pronto socorro, sempre disponíveis 24 horas por dia para cuidar da população de Alto Paraíso, São Jorge, Moinho e redondezas!! Infelizmente, estamos em uma situação INSUSTENTÁVEL!! Sem pagamento, fica cada vez mais difícil continuar trabalhando. Mas seguimos firmes pelo compromisso que temos com vocês. Peço que compartilhem essa mensagem e ajudem a cobrar das autoridades uma solução urgente. A população PRECISA do hospital e NÓS precisamos de condições dignas para continuar cuidando de vocês! Contamos com a solidariedade de todos!”

Leia a íntegra na reportagem clicando no link – https://ovetor.com.br/sos-saude-profissionais-do-hospital-municipal-de-alto-paraiso-de-goias-denunciam-falta-de-pagamento/

Em janeiro deste ano, novamente a comunidade mostrava contrariedade com os rumos da saúde no município, ao denunciarem falta de medicamentos, atraso de salários, médicos inexperientes, precariedade estrutural e risco à segurança de pacientes.

Provocado por moradores, o Jornal O VETOR trouxe, no dia 20 daquele mês, a reportagem CRISE NA SAÚDE DE ALTO PARAÍSO – Denúncias apontam precariedade no Hospital Municipal e revoltam moradores, que pode ser lida na íntegra no link: https://ovetor.com.br/crise-na-saude-de-alto-paraiso-denuncias-apontam-precariedade-no-hospital-municipal-e-revoltam-moradores/

Repúdio

O Presidente da Câmara de vereadores de Alto Paraíso de Goiás, Douglas Barbosa Barreto, que já vem há algum tempo cobrando melhorias na gestão da saúde municipal, se manifestou por meio de nota enviada ao Jornal O VETOR, com apoio aos médicos e cobrando melhorias no Hospital.

Um de sua manifestação de apoio a paralisação restritiva dos médicos veio por meio de faixas instaladas na frente do hospital.

A Polícia Militar foi chamada, causando momento de tensão, mas a situação foi contornada e as faixas mantidas. Vejo nos vídeos abaixo.

Presença da Polícia Militar causou breve momento de tensão devido ao questionamento de que a manifestação seria “palco político”.

Leia baixo a Nota emitida pelo vereador.

NOTA PÚBLICA DE APOIO AOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE E EM DEFESA DO HOSPITAL MUNICIPAL GUMERCINDO BARBOSA.

Como Vereador do Município de Alto Paraíso de Goiás, manifesto meu irrestrito apoio aos médicos e demais profissionais da saúde que vêm enfrentando uma situação extremamente grave e insustentável no Hospital Municipal Gumercindo Barbosa.

A notícia de que médicos acumulam mais de cinco meses sem receber pelos serviços prestados revela um cenário inadmissível para aqueles que diariamente dedicam suas vidas ao cuidado da população.

Ao mesmo tempo, os usuários do sistema público de saúde convivem com relatos constantes de falta de medicamentos, precariedade estrutural, insuficiência de insumos, dificuldades operacionais e demais problemas que comprometem a qualidade da assistência prestada. A situação chegou a um ponto em que profissionais e população tornaram-se vítimas da mesma crise. Importante destacar que esta realidade não surgiu de forma repentina. Há meses venho exercendo meu dever constitucional de fiscalização, apresentando requerimentos, solicitações de informações e acompanhando a execução do contrato de gestão do Hospital Municipal Gumercindo Barbosa.

Diante das inúmeras irregularidades e problemas identificados, apresentei perante a Câmara Municipal uma Indicação solicitando ao Chefe do Poder Executivo a rescisão do contrato de gestão firmado com o Instituto Alcance.  A matéria foi aprovada por unanimidade pelos vereadores, demonstrando que a preocupação com a situação da saúde municipal não é isolada, mas compartilhada por todo o Poder Legislativo.

Além disso, protocolei junto ao Ministério Público do Estado de Goiás uma REPRESENTAÇÃO COM PEDIDO DE INSTAURAÇÃO DE INQUÉRITO CIVIL, ADOÇÃO DE MEDIDAS CAUTELARES URGENTES, AUDITORIA E APURAÇÃO DE POSSÍVEIS IRREGULARIDADES NA EXECUÇÃO DO CONTRATO DE GESTÃO DO HOSPITAL MUNICIPAL GUMERCINDO BARBOSA, visando garantir a apuração dos fatos, a correta aplicação dos recursos públicos e a continuidade dos serviços de saúde à população.

Neste momento, é fundamental que o Poder Executivo Municipal, a organização social responsável pela gestão do hospital e os órgãos de controle atuem com máxima urgência para solucionar a crise instalada, regularizar os pagamentos dos profissionais, restabelecer condições adequadas de funcionamento da unidade e assegurar atendimento digno à população. Reafirmo meu compromisso de continuar fiscalizando, cobrando providências e defendendo os interesses da população de Alto Paraíso de Goiás. A saúde pública não pode esperar. Quem cuida da população merece respeito, valorização e condições dignas de trabalho. A população de Alto Paraíso merece um hospital funcionando plenamente, com qualidade, transparência e responsabilidade na aplicação dos recursos públicos.

Douglas Barreto

Vereador de Alto Paraíso de Goiás

ÍNTEGRA DO OFÍCIO ENVIADO AO MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL – MP-GO

Repúdio

Decana no legislativo alto-paraisense, a vereadora Aristéia Avelino do Nascimento – Téia também mostrou indignação com a atual situação da saúde no município ao emitir Nota de Repúdio.

Vereadora Téia também se manifestou por meio de nota. FOTO: Arquivo/Jornal O VETOR

No texto a vereadora afirma que “É inadmissível que trabalhadores da saúde permaneçam exercendo suas funções essenciais sem receber a contraprestação pelos serviços prestados, enquanto a Administração Municipal e a organização social responsável pela gestão do hospital deixam de apresentar soluções efetivas para o problema.”

Veja abaixo a íntegra da Nota.

NOTA DE REPÚDIO

A Vereadora ARISTÉIA AVELINO DO NASCIMENTO vem a público manifestar seu mais veemente REPÚDIO à gestão do Prefeito Municipal de Alto Paraíso de Goiás, MARCUS ADILSON RINCO, e ao Instituto Alcance Gestão em Saúde, responsável pela administração do Hospital Municipal Gumercindo Barbosa, diante da grave situação denunciada pelos profissionais médicos que atuam na unidade hospitalar.

Conforme comunicado formal encaminhado ao Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (CREMEGO), os médicos relataram atrasos de pagamento que variam entre cinco e seis meses pelos serviços já prestados, além da inexistência de qualquer cronograma concreto para regularização dos débitos. Trata-se de uma situação inaceitável, que evidencia falhas graves na condução da saúde pública municipal e profundo desrespeito aos profissionais responsáveis por garantir o atendimento à população.

É inadmissível que trabalhadores da saúde permaneçam exercendo suas funções essenciais sem receber a contraprestação pelos serviços prestados, enquanto a Administração Municipal e a organização social responsável pela gestão do hospital deixam de apresentar soluções efetivas para o problema. A saúde pública exige responsabilidade, planejamento, compromisso e respeito aos profissionais que diariamente dedicam suas vidas ao cuidado da população.

O resultado dessa irresponsabilidade administrativa recai diretamente sobre a população mais humilde de Alto Paraíso de Goiás, que depende exclusivamente do Hospital Municipal para receber atendimento médico. São trabalhadores, idosos, crianças, gestantes e famílias em situação de vulnerabilidade que acabam suportando as consequências da falta de planejamento, da inadimplência e da incapacidade de gestão.

Enquanto pagamentos permanecem atrasados e soluções concretas não são apresentadas, é a população que convive com a redução dos atendimentos e com a insegurança quanto ao acesso aos serviços de saúde. Os mais necessitados não podem ser penalizados por falhas administrativas daqueles que têm o dever legal e moral de garantir o funcionamento regular da rede pública de saúde.

Ainda mais grave é o fato de que os médicos permaneceram prestando atendimento à população mesmo diante da prolongada falta de pagamento, demonstrando compromisso ético, responsabilidade social e respeito à vida. A manutenção dos atendimentos de urgência e emergência pelos profissionais evidencia sua dedicação à população, ao mesmo tempo em que expõe a omissão daqueles que deveriam assegurar condições adequadas para a continuidade dos serviços.

Não se pode admitir que uma crise dessa magnitude seja tratada com promessas vagas, ausência de transparência e falta de providências concretas. A população de Alto Paraíso merece respostas, merece respeito e merece uma gestão comprometida com a saúde pública.

Diante desse cenário, exijo da Prefeitura Municipal de Alto Paraíso de Goiás, sob a gestão do Prefeito Marcus Adilson Rinco, e do Instituto Alcance Gestão em Saúde a imediata regularização dos pagamentos em atraso, a apresentação de um cronograma público para quitação dos débitos existentes e a adoção urgente de medidas capazes de restabelecer a normalidade dos serviços prestados à população.

Também conclamo o Ministério Público, o Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás, os órgãos de fiscalização e controle e toda a sociedade civil para que acompanhem atentamente a situação e adotem as providências cabíveis em defesa do interesse público.

A população de Alto Paraíso de Goiás merece respeito. Os profissionais da saúde merecem valorização. Não há saúde pública de qualidade sem profissionais respeitados, remunerados e com condições adequadas de trabalho. E não há gestão responsável quando os mais pobres são deixados à própria sorte em razão da incapacidade administrativa daqueles que deveriam zelar por um dos serviços mais essenciais à dignidade humana.

Reafirmo meu compromisso com a fiscalização dos atos da Administração Pública, com a defesa da transparência na aplicação dos recursos públicos e, sobretudo, com a garantia do direito constitucional à saúde para todos os cidadãos de Alto Paraíso de Goiás.

Alto Paraíso de Goiás/GO, junho de 2026.

ARISTÉIA AVELINO DO NASCIMENTO

Vereadora de Alto Paraíso de Goiás – GO

Posicionamentos

O Jornal O VETOR procurou a vice-prefeita e secretária municipal de saúde, Helena Gomes, que se manifestou por meio de nota. Leia abaixo.

Instituto alcance Gestão em Saúde

Pedimos também posicionamento da direção do Instituto alcance Gestão em Saúde, que, por meio de seu Superintendente, Ronnie Braz, respondeu que não procedem as alegações de falta de medicamentos, insumos e alimentação na unidade, e que  a paralisação dos profissionais médicos ocorre de forma parcial, restrita aos atendimentos eletivos e não urgentes. Veja abaixo o posicionamento.

“O Instituto Alcance Gestão em Saúde informa que a paralisação dos profissionais médicos ocorre de forma parcial, restrita aos atendimentos eletivos e não urgentes.

Ressalta-se que os atendimentos de urgência e emergência permanecem sendo realizados normalmente, sem qualquer prejuízo à assistência da população, em conformidade com a manutenção dos serviços essenciais de saúde.

O Instituto esclarece, ainda, que não procedem as alegações de falta de medicamentos, insumos e alimentação na unidade, estando o abastecimento regular e os serviços sendo mantidos dentro da normalidade operacional.

O Instituto, em conjunto com a gestão municipal, já iniciou tratativas formais com a categoria médica, com prazo previsto até a próxima segunda-feira para resolução dos impasses apresentados.

Reforçamos o compromisso com a continuidade, segurança e qualidade dos serviços prestados à população, adotando todas as medidas necessárias para garantir o pleno funcionamento da unidade”.

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