PARALISAÇÃO APROVADA – Greve dos Correios começa em todo o país após impasse sobre plano de saúde.

Trabalhadores rejeitaram proposta mesmo após avanço no reajuste salarial; sindicatos contestam possíveis mudanças no custeio e na gestão da assistência médica.

Roberto Naborfazan

Trabalhadores dos Correios iniciaram uma greve nacional por tempo indeterminado após assembleias realizadas na noite de quinta-feira (10) aprovarem a paralisação em praticamente todo o país. O movimento começou às 22h e é resultado de semanas de negociações da campanha salarial que terminaram sem acordo entre a estatal e as entidades representativas dos empregados.

Até o início da greve, 35 assembleias haviam aprovado a paralisação. No Acre, a deliberação estava prevista para esta sexta-feira (11). Goiás está entre as bases que decidiram aderir ao movimento.

Embora salários, benefícios e outras cláusulas façam parte da negociação do novo Acordo Coletivo de Trabalho, o principal obstáculo para um entendimento passou a ser o futuro do plano de saúde dos funcionários.

Plano de saúde se tornou principal ponto do impasse

A campanha salarial começou com divergências maiores entre os trabalhadores e a direção dos Correios.

Em agosto, a Federação Interestadual dos Sindicatos dos Trabalhadores e Trabalhadoras dos Correios (Findect) criticou uma proposta da empresa que previa reajuste inferior a 1% em itens econômicos e mudanças na assistência à saúde.

Na ocasião, segundo a federação, os Correios discutiram a possibilidade de deixar de ser mantenedores do atual modelo de plano de saúde e substituí-lo por outra forma de assistência, com contratação de operadora e cobrança de mensalidade e coparticipação dos beneficiários. A entidade sindical argumentou que a mudança poderia elevar os gastos dos trabalhadores e de suas famílias.

A proposta inicial provocou reação da categoria. Em assembleias realizadas no fim de agosto, trabalhadores rejeitaram as condições apresentadas e aprovaram indicativo de greve para setembro.

Diante da falta de consenso, os próprios Correios solicitaram, em 27 de agosto, a mediação do Tribunal Superior do Trabalho (TST) para tentar construir um novo acordo. A empresa afirmou naquele momento que buscava conciliar a preservação dos direitos dos empregados com a sustentabilidade financeira da estatal.

Empresa melhorou proposta salarial

As negociações avançaram nos dias seguintes, principalmente em relação à recomposição salarial.

Em 8 de setembro, a Findect informou que a proposta apresentada pelos Correios havia passado a prever reajuste de 100% do INPC sobre salários e os principais benefícios, em substituição à oferta inicial inferior a 1%.

A federação reconheceu o avanço, mas apontou que outras divergências permaneciam.

Uma delas envolvia o reajuste de determinadas funções. Outra, considerada central pela categoria, dizia respeito ao plano de saúde.

Pela proposta colocada em discussão, seria formada uma comissão paritária, com representantes dos trabalhadores e da empresa, para discutir durante até 120 dias alternativas para o modelo de gestão e de custeio da assistência à saúde.

Até uma eventual alteração, permaneceriam as condições do CorreiosSaúde II. Segundo a Findect, porém, o texto não oferecia uma garantia definitiva de que os Correios continuariam como mantenedores do plano, abrindo possibilidade para mudanças posteriores no financiamento do benefício.

Foi justamente essa incerteza que manteve o plano de saúde no centro das negociações.

Última tentativa no TST termina sem acordo

Na quinta-feira (10), representantes dos Correios, das entidades sindicais e do Tribunal Superior do Trabalho participaram de uma nova rodada de negociação.

A tentativa de conciliação terminou sem consenso.

Segundo a Findect, a direção da estatal manteve sua posição em relação ao plano de saúde e não apresentou as garantias reivindicadas pelos trabalhadores. Após a reunião, a federação orientou as bases a aprovarem a paralisação por tempo indeterminado.

Na noite do mesmo dia, as assembleias confirmaram a greve, com início às 22h.

Com isso, a categoria entrou em paralisação nesta sexta-feira (11).

Negociação avançou no reajuste de salários e benefícios, mas futuro do plano de saúde impediu acordo entre estatal e representantes dos trabalhadores. FOTO: Reprodução.

Correios dizem que assistência à saúde será mantida

Os Correios apresentam uma interpretação diferente sobre a proposta.

Em nota, a estatal afirma que buscou uma solução negociada e que a proposta apresentada contemplava 78 das 80 cláusulas do acordo coletivo vigente.

A empresa também destaca que ofereceu reajuste de 100% do INPC sobre salários e benefícios, com vigência a partir de 1º de agosto, além da manutenção da assistência à saúde dos empregados.

Assim, o ponto central da divergência está menos na existência imediata da assistência médica e mais nas garantias sobre seu modelo futuro de gestão e financiamento.

Enquanto a empresa afirma que o benefício será preservado, os sindicatos querem garantias de que eventuais mudanças não transfiram uma parcela maior dos custos aos trabalhadores nem retirem dos Correios a condição de mantenedores da assistência.

Greve pode afetar atendimento e entregas

Com o início da paralisação, os Correios informaram que colocaram em prática um Plano de Continuidade de Negócios para tentar diminuir os impactos sobre a população.

Entre as medidas anunciadas estão o remanejamento de trabalhadores, o reforço das equipes em atividades consideradas essenciais e ajustes logísticos destinados a manter o fluxo de encomendas e correspondências.

Ainda não há, entretanto, um balanço nacional consolidado sobre o impacto da greve em agências, centros de distribuição e entregas.

Na Paraíba, o Sindicato dos Trabalhadores em Correios e Telégrafos informou que apenas serviços administrativos internos estavam funcionando durante a paralisação.

A situação pode variar de acordo com a adesão dos trabalhadores em cada região.

Paralisação ocorre em meio a crise financeira

A greve começa em um momento de forte pressão sobre as contas dos Correios.

A estatal acumula 15 trimestres consecutivos de resultados negativos e registrou prejuízo líquido de aproximadamente R$ 5,55 bilhões somente no primeiro semestre de 2026.

Apesar do resultado elevado, houve melhora entre os dois primeiros trimestres do ano. O prejuízo caiu de cerca de R$ 3,16 bilhões no primeiro trimestre para R$ 2,39 bilhões no segundo.

Ao mesmo tempo, os Correios negociam uma nova operação de crédito de R$ 7 bilhões para reforçar o caixa e dar continuidade ao processo de reestruturação financeira.

A operação ainda depende de garantia da União. A estatal já havia contratado R$ 12 bilhões em crédito no final de 2025.

A situação financeira também aparece como pano de fundo das negociações trabalhistas. Os Correios sustentam que precisam conciliar a manutenção dos direitos dos empregados com medidas capazes de recuperar a sustentabilidade econômica da empresa.

Os sindicatos, por sua vez, argumentam que a recuperação financeira não pode ocorrer por meio da redução de direitos históricos da categoria.

Sem acordo até o momento, a greve segue por tempo indeterminado.

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