FILME DE BOLSONARO – Emendas e contrato milionário entram no radar da PF em investigação ligada a “Dark Horse”.
Material recolhido pela Polícia Civil de São Paulo poderá reforçar apuração sobre emendas destinadas a entidade ligada à produtora de “Dark Horse”. Instituto recebeu recursos públicos e é alvo de diferentes apurações.
Roberto Naborfazan
A investigação sobre a origem e o destino de recursos públicos relacionados a entidades ligadas à produtora de Dark Horse, filme inspirado na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, ganhou um novo desdobramento nesta segunda-feira (24). O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a acessar provas obtidas pela Polícia Civil de São Paulo em uma operação que investiga contratos do Instituto Conhecer Brasil com a Prefeitura da capital paulista.
A autorização atende a um pedido da própria Polícia Federal e permite que os investigadores federais analisem informações e materiais recolhidos pela polícia paulista. Apesar da conexão entre pessoas e entidades envolvidas, as duas investigações têm objetos distintos: a PF apura a possível utilização irregular de emendas parlamentares, enquanto a Polícia Civil investiga suspeitas relacionadas à execução de um contrato municipal.
O Instituto Conhecer Brasil (ICB) é presidido por Karina Ferreira da Gama, também proprietária da Go Up Entertainment, responsável pela produção de Dark Horse.
Emendas de R$ 2 milhões estão sob apuração
A investigação relatada por Flávio Dino no Supremo teve origem em representações que questionaram a destinação de emendas parlamentares para entidades relacionadas à produtora.
Entre os repasses analisados estão R$ 2 milhões destinados pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP) ao Instituto Conhecer Brasil em 2024 e 2025. Frias, que participou do projeto cinematográfico como roteirista e produtor executivo, nega que dinheiro das emendas tenha sido utilizado para financiar o filme.
Ao prestar esclarecimentos ao STF, o parlamentar afirmou que os recursos foram destinados a projetos nas áreas de inclusão digital, empreendedorismo e esporte e classificou como sem fundamento a suspeita de que o dinheiro público tenha sido empregado na produção cinematográfica.
O caso chegou ao Supremo inicialmente por representação da deputada Tabata Amaral (PSB-SP). Outras denúncias também foram apresentadas posteriormente, levando Dino a pedir explicações sobre emendas destinadas às entidades.
Operação em São Paulo investiga contrato de Wi-Fi
A decisão desta segunda-feira aproxima a investigação federal de outra apuração que já vinha sendo conduzida em São Paulo.
Em 1º de junho, a Polícia Civil paulista deflagrou a chamada Operação Wi-Fi, que teve entre os alvos o Instituto Conhecer Brasil, a Go Up Entertainment, endereços relacionados à presidente das entidades e a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo.
A investigação envolve um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões firmado entre o instituto e a Prefeitura de São Paulo para implantação e manutenção de milhares de pontos públicos de acesso gratuito à internet em regiões da cidade.
A Polícia Civil apura suspeitas de fraude na execução contratual, possível desvio de recursos e eventual confusão patrimonial entre entidades ligadas a Karina Ferreira da Gama. Uma das linhas de investigação busca esclarecer se recursos públicos vinculados ao programa municipal podem ter sido direcionados, direta ou indiretamente, a atividades da produtora. Até o momento, porém, não há conclusão de que dinheiro da Prefeitura tenha financiado Dark Horse.
A Prefeitura de São Paulo rejeitou as suspeitas de irregularidades e afirmou que o contrato com o Instituto Conhecer Brasil respeitou os princípios de legalidade, transparência e economicidade. O instituto, por sua vez, informou que está colaborando com as investigações e que contratou perícia e auditoria especializadas para auxiliar no esclarecimento dos fatos.

Repasse de Vorcaro é alvo de outro inquérito
Paralelamente às investigações sobre recursos públicos, outra frente do caso analisa o financiamento privado de Dark Horse.
Em julho, o ministro André Mendonça, também do STF, autorizou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para investigar repasses relacionados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e à produção do longa-metragem. A medida foi tomada a pedido da PF e recebeu parecer favorável da Procuradoria-Geral da República.
O episódio ganhou repercussão depois da divulgação de mensagens e áudios em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pedia recursos a Vorcaro sob a justificativa de financiar a produção. As informações inicialmente reveladas pelo The Intercept Brasil levaram a questionamentos sobre a origem e o destino do dinheiro.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades e sustenta que os recursos destinados ao filme eram privados e vinculados exclusivamente à produção cinematográfica. O senador também afirmou que não houve combinação de qualquer vantagem indevida com Vorcaro.
O inquérito relatado por André Mendonça é separado da apuração conduzida sob relatoria de Flávio Dino.
Filme avança em processo para lançamento no Brasil
Enquanto as investigações continuam, Dark Horse também avançou nos procedimentos necessários para chegar aos cinemas brasileiros.
A Agência Nacional do Cinema (Ancine) concedeu em 7 de agosto o Registro de Obra Estrangeira ao longa. O registro é uma das etapas necessárias para sua exploração comercial no país, mas não significa que o filme já esteja liberado para estreia. Ainda são necessários outros procedimentos, entre eles o Certificado de Registro de Título e a classificação indicativa.
A distribuição no Brasil está associada à Europa Filmes, e o título em português registrado é O Azarão. Até esta segunda-feira (24), não havia uma data oficial de estreia divulgada.
Com o compartilhamento autorizado por Flávio Dino, a Polícia Federal poderá agora cruzar as informações obtidas na investigação sobre as emendas parlamentares com provas recolhidas pela Polícia Civil paulista. O objetivo será esclarecer a movimentação dos recursos e verificar se existe relação entre as verbas públicas investigadas e as atividades da produtora responsável pelo filme.
Até o momento, as suspeitas permanecem sob investigação e não há decisão judicial que conclua que recursos públicos tenham sido utilizados para financiar Dark Horse.


