DO PLANTIO AOS GRÃOS – El Niño acende alerta para soja e milho com calor e chuvas irregulares em Goiás.

Previsões apontam temperaturas acima da média e risco de períodos secos entre as chuvas; manejo do solo e atenção às fases críticas das lavouras ganham importância na safra 2026/2027.

Roberto Naborfazan

O fortalecimento do El Niño reforça a atenção dos produtores de soja e milho para a safra 2026/2027. Em Goiás, as projeções indicam temperaturas acima da média e tendência de chuvas irregulares, com possibilidade de períodos mais secos entre os episódios de precipitação. Esse cenário pode dificultar o estabelecimento das lavouras e comprometer etapas importantes do desenvolvimento das plantas.

O fenômeno já está estabelecido. No boletim divulgado em 8 de outubro, o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) informou que o El Niño continuava se intensificando, com probabilidade superior a 83% de manutenção de intensidade forte a muito forte até o trimestre de janeiro a março de 2027.

Efeitos variam entre as regiões brasileiras

O El Niño está associado ao aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e a mudanças na circulação atmosférica, que alteram a distribuição das chuvas e das temperaturas em diferentes partes do planeta. Seus efeitos, entretanto, variam conforme a região e a atuação de outros sistemas climáticos.

No Brasil, o boletim do Painel El Niño divulgado em 1º de outubro pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indica maior probabilidade de chuvas acima da média no Sul, em parte do Sudeste e no leste do Nordeste durante o trimestre de outubro a dezembro. Em grande parte do Norte e em áreas do Nordeste e do Centro-Oeste, a tendência é de volumes abaixo da média. As temperaturas devem permanecer acima do normal em quase todo o país.

Por isso, os riscos para a agricultura não se restringem à seca. Enquanto algumas áreas podem enfrentar falta de água, outras precisam lidar com excesso de chuva. Segundo a Embrapa, os impactos sobre a produção dependem do volume e da distribuição das precipitações, da cultura e do manejo adotado em cada propriedade.

Goiás exige atenção à distribuição das chuvas

Para o território goiano, o Centro de Excelência em Estudos, Monitoramento e Previsões Ambientais do Cerrado (CEMPA-Cerrado) aponta um sinal mais consistente de temperaturas acima da média do que de alterações nas chuvas.

O boletim divulgado em 30 de setembro projeta, para o trimestre de outubro a dezembro, tendência de precipitações abaixo da média em boa parte do estado. Para novembro, os modelos não apresentam um sinal consistente para as chuvas. Já em dezembro, a indicação de volumes inferiores ao esperado aparece com maior destaque no centro e no norte de Goiás.

O CEMPA ressalta que essas projeções representam probabilidades. Chuva abaixo da média não significa ausência de precipitação, mas pode envolver intervalos mais secos entre as pancadas. A influência do El Niño também não ocorre de maneira uniforme em todo o estado.

Da implantação ao enchimento dos grãos

De acordo com Julia Veiga, engenheira agrônoma e coordenadora de portfólio da Biotrop, condições de calor e restrição de água exigem planejamento e manejo preventivo.

Na soja, explica a especialista, a seca pode limitar o desenvolvimento das raízes desde os estágios iniciais, reduzindo a capacidade da planta de explorar água e nutrientes no solo.

“Quando o déficit hídrico ocorre durante a fase reprodutiva, a falta de água provoca o abortamento de flores e vagens, causa diminuição do número e peso de grãos e reduz o potencial produtivo”, afirma.

Materiais técnicos da Embrapa também identificam a floração e o enchimento dos grãos como fases sensíveis à falta de água na soja. Déficits expressivos nesses períodos podem provocar alterações fisiológicas, queda de flores, abortamento de vagens e redução do rendimento.

Entre as medidas indicadas pela Embrapa estão o respeito às janelas de semeadura estabelecidas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) e o uso de plantas de cobertura para formar palhada e proteger o solo. FOTO: Divulgação Pixabay

No milho, a restrição hídrica afeta a formação e o desenvolvimento das espigas, a polinização e o enchimento dos grãos. Segundo a Embrapa, a falta de água durante o florescimento pode comprometer processos reprodutivos; durante o enchimento, pode reduzir a fotossíntese e a produção e transferência de compostos que abastecem os grãos.

Além dos prejuízos visíveis, a seca provoca mudanças no funcionamento das plantas.

“Para evitar a perda de água, a planta fecha os estômatos, reduzindo a fotossíntese, a produção de energia e a absorção de nutrientes. Como consequência, o crescimento desacelera, aumenta o estresse oxidativo e a cultura passa a ter menor capacidade de suportar condições climáticas adversas”, explica Julia.

Manejo começa pelo solo e pelo planejamento

Entre as medidas indicadas pela Embrapa estão o respeito às janelas de semeadura estabelecidas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) e o uso de plantas de cobertura para formar palhada e proteger o solo. A cobertura contribui para conservar água nas áreas sujeitas à estiagem e proteger o terreno nas regiões com chuvas mais intensas.

Para Mato Grosso e Goiás, a instituição destaca riscos de atraso do plantio, déficit hídrico e efeitos sobre as culturas cultivadas depois da soja, como milho e algodão de segunda safra. Entre as estratégias estão cultivares com melhor desempenho sob seca e calor, escalonamento do plantio e manutenção da cobertura do solo.

Bioinsumos como ferramenta complementar

Julia Veiga afirma que, além da escolha de cultivares adaptadas e das boas práticas de manejo, os bioinsumos podem contribuir para aumentar a capacidade das plantas de enfrentar o estresse hídrico.

Entre as tecnologias citadas pela especialista está um ativador microbiológico de plantas desenvolvido pela Biotrop. Segundo ela, o produto estimula o desenvolvimento das raízes, melhora a eficiência no uso da água e auxilia a resposta da planta às condições de estresse.

De acordo com a coordenadora, esses mecanismos podem ajudar as culturas a atravessar períodos de estiagem ou de irregularidade das chuvas com menor impacto fisiológico, contribuindo para preservar o desenvolvimento e o potencial produtivo.

Conforme os dados apresentados pela empresa, estudos conduzidos por consultorias agronômicas, instituições de pesquisa e parceiros descritos como independentes registraram resposta positiva em mais de 86% dos ensaios avaliados. No milho, o incremento médio informado foi de seis sacas por hectare.

A recomendação apresentada pela Biotrop é utilizar a tecnologia desde a implantação da lavoura, por tratamento de sementes ou aplicação no sulco de plantio. Segundo Julia, a proposta é favorecer o sistema radicular desde os primeiros estágios de desenvolvimento.

Para a especialista, tecnologias biológicas podem integrar uma estratégia de manejo voltada à maior resiliência das plantas e à manutenção do potencial produtivo diante da irregularidade na disponibilidade de água.

O acompanhamento das previsões e dos alertas oficiais permanece necessário ao longo da safra, uma vez que os efeitos do El Niño variam entre regiões e as projeções climáticas são atualizadas periodicamente.

FOTO DE CAPA: FOTO: Jaelson Lucas/AEN

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