ARTIGO – A universidade precisa atravessar o território: a educação no corredor da geopoesia.
“Encontro de desigualdades tráfego de idas e vindas mão e contra mão: one way to love”. Tião Pinheiro

Na Secretaria de Estado da Educação de Goiás, o período de retorno às aulas também pode ser compreendido como um tempo de reflexão, avaliação e correção de rotas. Analisar dados e resultados é, sem dúvida, uma oportunidade valiosa para reconhecer os avanços, identificar desafios e pensar caminhos que possam produzir impactos.
Impactos para nossas escolas e nossos estudantes, mas também para toda a região que acolhe as instituições de educação. Diante dos painéis apresentados pelo BI (Business Intelligence), torna-se crucial lançarmos um olhar para além dos números. Goiás apresenta resultados de destaque em determinadas áreas – dentre elas, a redação -; quando ampliamos o olhar para os recortes regionais, encontramos realidades que merecem atenção e, sobretudo, mobilização.
Na regional de Campos Belos, por exemplo, esses indicadores nos fazem lembrar que os desafios educacionais no podem ser dissociados das condições concretas de vida de nossos estudantes. Durante muito tempo, essa região foi marcada pela expressão “corredor da miséria”. Contudo, não podemos deixar de mencionar o quanto, nas últimas décadas, temos trabalhado para ressignificar essa compreensão, buscando formas de evidenciar as riquezas (res)guardadas nesse espaço singular do Brasil de dentro.
Hoje, muitos pesquisadores já reconhecem um “corredor da geopoesia” – valorizando o humano, a territorialidade, para além das cifras. Contudo, ressignificar um território não significa ignorar suas dificuldades. Dentre elas, permanece uma das mais silenciosas e decisivas: a distância. Distância geográfica. Distância econômica. Distância entre o desejo e a possibilidade. Distância entre o estudante e as oportunidades que, muitas vezes, parecem existir apenas nos grandes centros. Os epicentros para esse distanciamento são Goiânia e Brasília, zonas de influência do Nordeste Goiano.
Para muitos jovens que vivem nas capitais, uma universidade pública, seus cursos, laboratórios, projetos de extensão e possibilidades acadêmicas fazem parte de um horizonte de expectativa concreto. Para muitos dos nossos discentes do interior, entretanto, o ensino superior ainda aparece como um sonho que precisa vencer muitas barreiras antes mesmo de se transformar em projeto de vida.
Muitas vezes, trata-se de não conseguir visualizar o caminho, uma vez que nossos estudantes são, em grande parte, filhos de famílias que não dispõem de condições financeiras para sustentá-los longe de casa durante uma graduação. Para alguns, deixar a cidade significa deixar também a rede de apoio, o trabalho, a família e as condições mínimas que tornam possível permanecer estudando.
Ainda ecoando o Dia do Estudante neste texto, queremos emprestar a voz aos alunos do extremo norte/nordeste de Goiás e conclamar as Instituições de Ensino Superior e de Ensino Técnico a também atravessarem distâncias.
Que o recente 11 de agosto permaneça como convite à aproximação e ao diálogo. Fica aqui o nosso chamado para visitas, rodas de conversa, feira de profissões, aulas abertas, experiências em laboratórios, enfim, uma universidade itinerante. Uma universidade que percorra estradas, alcance escolas, promova encontros com universitários vindos de situações semelhantes e faça o corredor da geopoesia também desembocar no ensino superior. Porque, para transformar possibilidades abstratas em projetos concretos, às vezes é preciso que a universidade também faça o caminho.
***Larissa Cardoso Beltrão – Professora Doutora em Literatura (UnB) e pesquisadora do Grupo de Pesquisa GEABI no Colégio Estadual Mariano Barbosa Júnior em Campos Belos (GO). Nesses campos, desenvolve estudos e ações voltadas à educação, à literatura, ao território e às desigualdades regionais.
****Augusto Niemar – Poeta. Professor de Literatura na Universidade de Brasília (UnB). Bolsista de Produtividade (CNPq). Realizando Estágio Pós-Doutoral no Instituto Superior de Ciências da Educação do Sumbe (ISCEDSumbe), Desenvolvendo Projeto CNPq: Relações Brasil e Angola no espaço escola. CNPq/Chamada Pública MCTI/CNPq nº 16/2024 – UEA/UNEMAT/UnB e o ISCED-Sumbe.


