TRANSPLANTE DE CÓRNEA – Brasil tem recorde de cirurgias e uma fila que não para de crescer.
Mais de 37 mil pessoas aguardam pela cirurgia, enquanto especialistas apontam efeitos da pandemia e dificuldades enfrentadas pelos bancos de olhos.
Roberto Naborfazan*
O Brasil chegou a 37.719 pessoas aguardando por um transplante de córnea. Além do tamanho da fila, outro dado expõe a dificuldade enfrentada pelos pacientes: atualmente, são necessários, em média, 370 dias para conseguir realizar a cirurgia — mais que o dobro dos 174 dias registrados há dez anos.
Os números são do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e revelam um paradoxo. Ao mesmo tempo em que cresce o número de pessoas à espera, o país nunca realizou tantos transplantes de córnea.
Somente em 2025, foram feitas 17.790 cirurgias, o maior volume registrado até então. Ainda assim, o ritmo de entrada de novos pacientes tem impedido a redução da fila.
Em dezembro de 2025, 32.639 pessoas aguardavam pelo procedimento. O contingente atual de 37.719 pacientes representa crescimento de aproximadamente 15% desde então.
“No entanto, o sistema nacional enfrenta um paradoxo: mesmo operando próximo à autossuficiência teórica para o fluxo anual, a lista de espera ativa continua se expandindo devido ao ritmo rápido de novas indicações médicas”, alertou o CBO.
Pandemia agravou represamento de pacientes
Parte do cenário atual começou a se formar durante a pandemia de covid-19.
Em 2019, antes da emergência sanitária, o Brasil havia realizado 14.942 transplantes de córnea. No ano seguinte, com a suspensão de diversas cirurgias eletivas e a reorganização da estrutura hospitalar para atender pacientes com covid-19, o número caiu para 7.349 — menos da metade do registrado no ano anterior.
A partir de 2021, os transplantes voltaram a crescer.
Naquele ano, foram realizados 12.869 procedimentos. O número passou para 14.082 em 2022 e chegou a 16.028 em 2023.
A recuperação continuou em 2024, quando o país realizou 17.108 transplantes, até alcançar o recorde de 17.790 cirurgias em 2025.
Apesar da recuperação progressiva da capacidade de atendimento, o passivo acumulado durante os anos de pandemia e o ingresso contínuo de novos pacientes contribuíram para manter a fila elevada.
Espera passou de 174 para 370 dias
O crescimento da demanda também pode ser observado pelo tempo que um paciente precisa permanecer na fila.
Há dez anos, a espera média por um transplante de córnea era de 174 dias. Atualmente, são aproximadamente 370 dias.
Isso significa que o tempo necessário para chegar à cirurgia mais que dobrou em uma década.
Para o CBO, o quadro é resultado de diferentes fatores. Além do represamento provocado principalmente entre 2020 e 2023, especialistas apontam dificuldades relacionadas ao financiamento dos procedimentos e à estrutura responsável pela captação, processamento e disponibilização das córneas.
Bancos de olhos enfrentam dificuldades
Entre os principais obstáculos apontados pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia está a falta de reajuste dos valores pagos pelos procedimentos.
Os bancos de olhos também enfrentam aumento dos custos de manutenção, especialmente porque parte dos insumos utilizados é cotada em dólar.
Ao mesmo tempo, cresceram as exigências relacionadas às etapas de produção e processamento das córneas, incluindo novas demandas de controle e gestão da qualidade.
“Essas causas alinhadas geram uma fatura que não fecha para o banco de olhos, que recebe a mesma coisa que há uma década, quando não existiam tantos requerimentos na legislação”, reforçou o conselho.
Essas dificuldades estruturais ajudam a explicar por que o aumento do número de transplantes ainda não foi suficiente para eliminar o estoque de pacientes que aguardam pela cirurgia.

Ceará se destaca pela rapidez
A situação também varia significativamente de um estado para outro.
O Ceará aparece como um dos principais exemplos de agilidade na realização dos transplantes. Em 2025, foram feitos 1.371 procedimentos no estado.
Mesmo com a entrada de 1.639 novos pacientes ao longo daquele ano, a alta rotatividade permitiu que o Ceará encerrasse dezembro com apenas 93 pessoas ativas na fila.
Mato Grosso também se destaca pelo baixo número de pacientes aguardando, com apenas 37 pessoas na lista de espera.
A situação é bastante diferente no Rio de Janeiro.
Em 2025, o estado realizou 653 transplantes de córnea, enquanto 1.720 novos pacientes ingressaram na fila. O desequilíbrio levou o Rio de Janeiro a encerrar dezembro com 4.760 pessoas aguardando pelo procedimento.
São Paulo concentrava a maior fila absoluta do país no final de 2025, com 7.505 pacientes ativos. Minas Gerais aparecia em seguida, com 4.532.
Apesar do grande número de pessoas aguardando nesses dois estados, o CBO avalia que ambos mantêm uma relação entre tamanho da fila e quantidade de transplantes mais equilibrada do que a observada no Rio de Janeiro.
No outro extremo da capacidade de atendimento, Amapá e Roraima não registraram nenhum transplante de córnea durante 2025.
Idosos representam quase metade da fila
Os dados também permitem traçar o perfil de quem aguarda pelo procedimento no país.
As mulheres correspondem a 56% dos pacientes presentes na fila.
Em relação à idade, pessoas com 65 anos ou mais representam 47% dos candidatos ao transplante — praticamente metade de todos os pacientes.
Segundo o CBO, esse cenário está relacionado, entre outros fatores, ao envelhecimento da população brasileira e ao crescimento das doenças degenerativas da córnea.
Outro dado que chama atenção envolve crianças e adolescentes.
Atualmente, 753 pacientes infantojuvenis aguardam por um transplante de córnea no Brasil. Em dezembro de 2025, eram 616.
Isso representa acréscimo de 137 crianças e adolescentes à fila.
Brasil mantém destaque internacional
Apesar do tamanho da lista de espera e dos desafios para reduzir o tempo até a cirurgia, especialistas do Conselho Brasileiro de Oftalmologia avaliam que o desempenho brasileiro permanece em posição de destaque internacional.
Em termos gerais, o país apresenta resultados considerados compatíveis com os observados em países como Canadá e Austrália e em algumas nações europeias.
Na América Latina, o Brasil aparece à frente de países como Argentina, Chile, Colômbia e México na realização de transplantes de córnea.
O desafio, segundo os especialistas, está em transformar a elevada capacidade de realização dos procedimentos em uma redução efetiva e contínua da fila acumulada.
Tema é debatido em congresso
O crescimento da lista de espera, o desempenho dos estados e as dificuldades enfrentadas pelos bancos de olhos estão entre os temas debatidos durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia (CBO 2026).
O evento acontece em Salvador e segue até sábado, 12 de setembro, reunindo especialistas para discutir os principais desafios relacionados à saúde ocular e à assistência oftalmológica no país.
** FONTE: Reportagem de Paula Laboissière, da Agência Brasil


