REDE DE PESQUISA NO CORREDOR DA GEOPOESIA: A educação no nordeste goiano em busca de epistemologias e metodologias.
A educação é o ato de socializar com as novas gerações os conhecimentos historicamente produzidos. […] Para qual sonho você educa? – Bárbara Carine, Como ser um educador antirracista (2023).

Augusto Niemar **
Tendo em vista os dados divulgados acerca do processo de ensino-aprendizagem na região nordeste de Goiás, este texto chega como um ipê amarelo que irrompe a aridez do sertão trazendo cor e esperança para seu povo. É um pedido para que as universidades públicas e suas comunidades acadêmicas possam desenvolver ações itinerantes pelo interior de Goiás; que professores, pesquisadores, estudantes universitários e equipes de extensão possam chegar às escolas, conversar com nossos jovens, apresentar cursos, mostrar laboratórios, compartilhar experiências, apontar caminhos de acesso e de permanência. Nossos estudantes vêm se imaginando dentro de uma universidade pública desde o REUNI e agora é hora de tornar esse desejo uma realidade palpável e consolidada.
Compreender a dinâmica dos territórios implica reconhecer que o interior de Goiás deve ser alcançado por políticas comprometidas com suas realidades. O Nordeste Goiano reivindica, pelo enfronteiramento, presenças que o reconheçam e um olhar das universidades da capital e da região metropolitana para esse Goiás de dentro, onde vive uma juventude potente, inteligente e cheia de sonhos. Uma juventude que sonha sem medo de ser feliz e que, muitas vezes, busca interlocutores capazes de lhe mostrar que o sonho pode ter caminho.
Neste momento em que testes são realizados para que o Índice da Educação Básica (IDEB) seja mensurado via Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o caminho de muitos jovens até o vestibular começa pelo reconhecimento de que a universidade também pode ser seu lugar. A escolha de um curso ganha horizonte quando as possibilidades se abrem; a confiança na aprovação cria raizamas (raízes e rizomas fortes) que se espalham pelo corredor da geopoesia. Quando esses jovens reconhecem a própria potência e seu pertencimento ao espaço que desejam ocupar, na própria terra, no próprio chão, ao Estado cabe cultivar esses caminhos, com políticas que aproximem universidade e território e permitam aos estudantes reconhecer no ensino superior um espaço de transformação social e desenvolvimento humano, onde seus sonhos tenham chão para crescer.
Se queremos ampliar o acesso ao ensino superior público, precisamos também ampliar o imaginário sobre quem pode ocupá-lo e fortalecer os espaços, os campi locais e estratégicos. Que nossas universidades venham ao interior. Que nossos estudantes conheçam seus corredores de ciências e artes antes de precisarem deixar seus próprios territórios. E que o nosso corredor da geopoesia possa ser, cada vez mais, também um corredor de oportunidades, certezas e aconteceres.
Nesse contexto no qual voltamos nossos olhares para a necessidade de valorização da pátria, no momento fulcral das eleições, talvez possamos pensar uma educação “cívica” que não se limite aos símbolos oficiais, mas pergunte, parafraseando Roberto Damatta, também o que faz o Brasil, Brasil no Nordeste Goiano. Que Brasil se aprende quando se conhece o próprio território, sua cultura, suas histórias e identidades? Que o jovem possa reconhecer sua pátria também nos materiais didáticos que reflitam sua realidade, espelhem os valores e as características de nossa região e façam do pertencimento uma forma de conhecimento.
Um caminho para esse diálogo entre Escola, Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino Superior pode estar na criação de grupos de pesquisa, como o exemplo que vimos implantando no Colégio Mariano Barbosa Júnior, o Grupo de Estudos Afrobrasileiro e Indígena (GEABI). Inciativas como essa fomentam a formação de um pesquisador ainda na escola e prepara esse jovem para desenvolver suas competências em instituições locais, com projetos e interesses voltados para as realidades locais.
Já existem vários diálogos entre instituições do corredor da geopoesia: IFG, UEG, Escola Agrícola e UFT – essas últimas dias, mesmo situadas no estado do Tocantins, atendem centenas de alunos do Nordeste goiano. Mas é preciso fortalecer essa corrente e transformá-la numa rede permanente de fomento e estímulo à pesquisa. Uma rede que una escola, universidade e território e permita que nossos jovens não precisem sair de seu chão para descobrir que também podem produzir conhecimento sobre ele.
Que o 04 de outubro seja um convite para repensarmos a independência de nosso país sob uma perspectiva sociointelectual, reconhecendo que a liberdade vai além da autonomia política e se fortalece por meio da educação, do pensamento crítico, da consciência histórica e da participação cidadã. Que possamos, assim, contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e comprometida com a emancipação de todos os brasileiros.
*** Larissa Beltrão – Professora Doutora em Literatura (UnB), agente regional de PNEERQ em Campos Belos – Goiás. Nesses campos, desenvolve estudos e ações voltadas à educação, à literatura de campo no corredor da geopoesia, ao território e às desigualdades regionais.
****Augusto Niemar – Poeta. Professor de Literatura na Universidade de Brasília (UnB). Bolsista de Produtividade (CNPq). Realizando Estágio Pós-Doutoral no Instituto Superior de Ciências da Educação do Sumbe (ISCED-Sumbe/Angola), Desenvolvendo Projeto CNPq: Relações Brasil e Angola no espaço escola. CNPq/Chamada Pública MCTI/CNPq nº 16/2024 – UEA/UNEMAT/UnB e o ISCED-Sumbe (Cuanza Sul/Angola).


