CÂNCER COLORRETAL – Novo tratamento aprovado pela Anvisa aumenta sobrevida de pacientes

Fruquintinibe é indicado para pacientes que já passaram por diferentes terapias; estudo mostrou aumento da sobrevida e maior controle da progressão da doença.

Roberto Naborfazan

Pacientes com câncer colorretal metastático que já passaram por diferentes linhas de tratamento passam a contar com uma nova alternativa terapêutica no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, na segunda-feira (31), o registro do Fruzaqla, medicamento à base de fruquintinibe destinado a adultos com a doença em estágio avançado e previamente tratados.

A aprovação ganha importância especialmente por atingir um grupo de pacientes para o qual as possibilidades de tratamento vão se tornando mais limitadas à medida que a doença progride e deixa de responder às terapias anteriormente utilizadas.

O câncer colorretal engloba os tumores que atingem o cólon e o reto. Quando é classificado como metastático, significa que as células cancerígenas se espalharam do local de origem para outras partes do organismo.

A dimensão da doença também ajuda a explicar a importância da chegada de novas alternativas terapêuticas. Para 2026, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 53.810 novos casos de câncer de cólon e reto no Brasil, sendo 26.270 entre homens e 27.540 entre mulheres. É o segundo tipo de câncer mais incidente, excluindo os tumores de pele não melanoma, tanto entre homens quanto entre mulheres no país.

Para quem é indicado o novo tratamento

O Fruzaqla não é destinado a todos os pacientes com câncer colorretal e também não representa uma terapia de primeira escolha.

De acordo com a Anvisa, o medicamento é indicado para adultos com câncer colorretal metastático que já tenham sido tratados com esquemas de quimioterapia envolvendo fluoropirimidina, oxaliplatina e irinotecano, além de terapia contra o fator de crescimento endotelial vascular, o VEGF.

Nos pacientes cujos tumores apresentam o chamado RAS selvagem — ou seja, sem determinadas mutações nos genes RAS — e quando clinicamente apropriado, também é considerado o tratamento prévio com uma terapia anti-EGFR, direcionada ao receptor do fator de crescimento epidérmico.

Na prática, isso coloca o fruquintinibe entre as alternativas para pacientes que já percorreram uma longa trajetória de tratamento e cuja doença continuou avançando.

Estudo apontou aumento da sobrevida

A aprovação é sustentada por evidências de estudos clínicos que avaliaram o desempenho do fruquintinibe em pacientes com câncer colorretal metastático previamente tratados.

Um dos principais trabalhos foi o FRESCO-2, estudo internacional de fase 3, randomizado e duplo-cego, realizado em 124 hospitais e centros de câncer de 14 países.

Ao todo, 691 pacientes participaram da pesquisa. Eles já haviam recebido uma mediana de quatro linhas anteriores de tratamento contra a doença metastática, o que demonstra que se tratava de uma população com câncer avançado e fortemente pré-tratado.

Os participantes foram divididos entre aqueles que receberam fruquintinibe associado aos melhores cuidados de suporte e aqueles que receberam placebo mais cuidados de suporte.

A diferença observada foi significativa.

A sobrevida global mediana entre os pacientes tratados com fruquintinibe chegou a 7,4 meses, enquanto no grupo do placebo foi de 4,8 meses. A análise estatística apontou uma redução relativa de aproximadamente 34% no risco de morte durante o período analisado.

Outro resultado importante ocorreu na chamada sobrevida livre de progressão, indicador que mede durante quanto tempo a doença permanece sem apresentar avanço.

Nesse caso, a mediana foi de 3,7 meses entre os pacientes que utilizaram fruquintinibe, contra 1,8 mês no grupo que recebeu placebo, representando um prolongamento significativo do período de controle da doença.

Os números não significam que todos os pacientes viverão exatamente esses períodos. Em pesquisas oncológicas, as medianas servem para comparar o comportamento dos grupos estudados e avaliar se determinado tratamento oferece benefício clínico.

Também é importante destacar que o fruquintinibe não representa cura para o câncer colorretal metastático. Seu benefício demonstrado é aumentar o tempo de controle da doença e prolongar a sobrevida em pacientes previamente tratados.

Medicamento aprovado no Brasil abre nova frente contra câncer colorretal metastático. FOTO: Reprodução

Como o fruquintinibe age contra o tumor

Uma das características do fruquintinibe está na maneira como ele interfere na capacidade do tumor de formar novos vasos sanguíneos.

Para crescer, uma massa tumoral necessita de oxigênio e nutrientes. Parte desse abastecimento ocorre por meio da criação de novos vasos sanguíneos, processo conhecido como angiogênese.

O fruquintinibe é um inibidor seletivo dos receptores VEGFR-1, VEGFR-2 e VEGFR-3. Esses receptores participam da ação do fator de crescimento endotelial vascular, o VEGF, uma das principais vias responsáveis por estimular a formação de vasos sanguíneos.

Quando o medicamento bloqueia esses receptores, reduz a sinalização que favorece a formação de novos vasos. Dessa forma, dificulta o fornecimento de sangue necessário para sustentar o crescimento tumoral.

Em linguagem simples, é como se o medicamento reduzisse uma das rotas usadas pelo tumor para obter os recursos necessários para continuar crescendo. Não significa que todo o fornecimento de sangue seja eliminado, mas que uma via fundamental para a angiogênese é bloqueada.

Essa estratégia, conhecida como terapia antiangiogênica, já é utilizada em diferentes tratamentos contra o câncer.

Tratamento oral também exige acompanhamento

O fruquintinibe é administrado por via oral, mas isso não significa que seja um tratamento simples ou isento de riscos. A indicação precisa ser feita pelo oncologista, levando em consideração o histórico de tratamentos, características do tumor, condição clínica e possíveis riscos para cada paciente.

Nos estudos clínicos, eventos adversos importantes foram registrados.

No FRESCO-2, 63% dos pacientes que utilizaram o medicamento apresentaram eventos adversos de grau 3 ou superior, contra 50% no grupo placebo. Entre os efeitos graves mais frequentes relacionados ao tratamento apareceram hipertensão, astenia — caracterizada por fraqueza ou perda de energia — e a síndrome mão-pé, que pode provocar vermelhidão, dor e alterações na pele das mãos e dos pés.

Outras reações observadas com o medicamento incluem alterações na pressão arterial, presença de proteínas na urina, diarreia, dores abdominais, alterações na voz e cansaço.

Por isso, mesmo sendo uma terapia oral, o tratamento requer acompanhamento médico e monitoramento dos possíveis efeitos adversos.

Aprovação da Anvisa não significa acesso imediato pelo SUS

O registro concedido pela Anvisa é uma etapa fundamental porque autoriza a comercialização do medicamento no Brasil para a indicação aprovada, após avaliação de segurança, eficácia e qualidade.

Isso, porém, não significa que o Fruzaqla passe automaticamente a ser oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Para que um novo medicamento seja incorporado ao sistema público, ele precisa passar por um processo específico de avaliação. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) analisa, entre outros aspectos, as evidências científicas, a efetividade, a segurança, a comparação com os tratamentos já oferecidos, a relação entre custos e benefícios e o impacto financeiro para o sistema de saúde.

O registro da Anvisa é, portanto, condição necessária para que essa avaliação de incorporação possa ocorrer, mas não equivale à inclusão automática do medicamento na rede pública.

Uma nova alternativa onde as opções diminuem

A relevância do fruquintinibe está justamente no momento da trajetória do paciente em que ele pode ser utilizado.

Em pacientes com câncer colorretal metastático, é comum que diferentes estratégias sejam empregadas ao longo do tratamento. Conforme a doença progride depois de sucessivas terapias, encontrar opções capazes de oferecer novos períodos de controle se torna cada vez mais difícil.

O estudo FRESCO-2 foi realizado exatamente nesse cenário: 73% dos participantes já haviam recebido mais de três linhas de tratamento para a doença metastática.

Por isso, a aprovação brasileira não deve ser interpretada como a descoberta de uma cura, mas como a incorporação ao arsenal terapêutico de mais uma possibilidade para pacientes com câncer avançado que já esgotaram ou deixaram de responder a tratamentos anteriores.

Para essas pessoas, prolongar o período em que o câncer permanece controlado e aumentar a sobrevida pode representar um avanço clínico relevante — e é justamente nesse grupo que o fruquintinibe demonstrou benefício.

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