DISFUNÇÃO ERÉTIL – O que pode estar por trás da dificuldade de ereção?

Uma dificuldade de ereção ocasional não significa necessariamente que exista um problema de saúde. Cansaço, estresse, álcool e ansiedade podem interferir temporariamente no desempenho.

Por Arthur Andrade*

Ele bebe para relaxar, assiste a vídeos para entrar no clima e, ainda assim, na hora H, a ereção não acontece como esperava. A situação pode parecer contraditória, mas não é tão incomum: fatores que, em determinados contextos, parecem ajudar na excitação podem acabar atrapalhando a resposta sexual.

Uma dificuldade de ereção ocasional não significa necessariamente que exista um problema de saúde. Cansaço, estresse, álcool e ansiedade podem interferir temporariamente no desempenho. A preocupação começa quando os episódios se tornam frequentes ou passam a gerar medo de que aconteçam novamente.

Para o urologista Nelson Batezini, é justamente aí que o homem precisa olhar para o contexto em vez de tentar encontrar uma única explicação.

“A ereção depende da integração entre circulação sanguínea, sistema nervoso, hormônios e aspectos psicológicos. Por isso, quando existe uma dificuldade persistente, precisamos entender o conjunto: saúde, hábitos, medicamentos, estado emocional e a própria dinâmica da vida sexual”. Diz Nelson Batezini

O “relaxante” que pode atrapalhar

O álcool talvez seja um dos elementos mais curiosos dessa equação.

A bebida pode diminuir a inibição e fazer com que o homem se sinta mais relaxado socialmente. O problema é que, em maior quantidade, o efeito sobre o sistema nervoso pode prejudicar justamente os mecanismos envolvidos na ereção.

“É comum associar álcool a uma maior facilidade para iniciar uma relação sexual porque existe uma redução da ansiedade e da inibição. Mas isso não significa que a resposta fisiológica será melhor. Dependendo da quantidade, o álcool pode dificultar a obtenção ou a manutenção da ereção”, explica Nelson.

Um episódio depois de uma noite de excesso não deve ser interpretado automaticamente como disfunção erétil. A frequência e o contexto são importantes.

Pornografia: o problema pode estar na expectativa

A pornografia também costuma aparecer nessa conversa, mas exige cuidado.

Não é correto dizer que assistir a conteúdo pornográfico, por si só, causa disfunção erétil. A questão pode surgir quando o consumo interfere na forma como o homem experimenta a própria sexualidade ou cria expectativas difíceis de reproduzir em uma relação real.

Corpos, duração das relações, intensidade dos estímulos e desempenho apresentados em vídeos não representam necessariamente uma experiência sexual comum.

“A pornografia não deve ser colocada como causa automática de disfunção erétil. O que merece atenção é quando o homem percebe que precisa de determinados estímulos para conseguir se excitar ou que existe uma diferença muito grande entre sua resposta diante da pornografia e durante uma relação sexual”, afirma o urologista.

Para alguns homens, a preocupação pode estar menos no conteúdo em si e mais na dependência de um determinado padrão de estímulo.

Quando a cabeça começa a atrapalhar o corpo

Existe ainda um terceiro personagem nessa história: a ansiedade.

Um episódio de perda de ereção pode ser suficiente para criar uma preocupação para a próxima relação. O homem começa a pensar se vai acontecer novamente, presta atenção na própria ereção e interpreta qualquer oscilação como sinal de que está “falhando”.

A atenção, que deveria estar voltada para a experiência sexual, passa a estar concentrada no desempenho.

“É um ciclo. O homem tem uma dificuldade, fica preocupado com a possibilidade de ela se repetir e entra na relação seguinte já se avaliando. Essa tensão pode interferir na resposta sexual e confirmar justamente o medo que ele tinha”, diz Nelson.

É por isso que a chamada ansiedade de desempenho pode transformar um episódio pontual em uma dificuldade recorrente.

Bebida, pressão por desempenho e hábitos sexuais podem interferir na ereção. FOTO: Reprodução.

Como saber se é ansiedade ou se existe uma causa física?

Não existe um teste simples que permita separar as duas coisas em casa. Mas o padrão dos episódios pode oferecer informações importantes para o médico.

Quando a dificuldade acontece apenas em determinadas situações e o homem continua apresentando ereções espontâneas ou ao acordar, por exemplo, fatores psicológicos ou situacionais podem estar envolvidos.

Já alterações que aparecem progressivamente e em diferentes circunstâncias merecem investigação clínica.

“A ereção também depende da saúde vascular. Por isso, uma alteração persistente não deve ser automaticamente atribuída à ansiedade, ao estresse ou à idade. E m alguns casos, ela pode ser um dos primeiros sinais de alterações metabólicas ou cardiovasculares”, alerta o especialista.

Hipertensão, diabetes, alterações do colesterol, obesidade, tabagismo e algumas medicações estão entre os fatores que podem interferir na função erétil.

E se o desejo continua, mas a ereção não?

Outro ponto que costuma gerar confusão é acreditar que dificuldade de ereção significa necessariamente falta de desejo.

Não é assim.

Libido e ereção são fenômenos diferentes. O homem pode continuar interessado em sexo e sentir desejo, mas ter dificuldade para obter ou manter a ereção.

Da mesma forma, uma eventual dificuldade não significa necessariamente que exista um problema permanente.

“O homem pode ter desejo sexual preservado e, ainda assim, apresentar dificuldade de ereção. São mecanismos diferentes, embora estejam relacionados. Por isso, é importante não interpretar automaticamente uma falha de ereção como falta de atração ou de interesse pela parceira ou pelo parceiro”, frisa Nelson Batezini

Quando vale procurar ajuda?

Se a dificuldade passa a se repetir, causa sofrimento ou começa a fazer o homem evitar relações sexuais por medo de falhar, vale procurar um urologista.

A consulta pode avaliar histórico médico, medicamentos, hábitos, sono, consumo de álcool, libido, ereções espontâneas e outros sintomas. Dependendo do caso, exames podem ser necessários.

E existe um cuidado importante: não tentar resolver o problema por conta própria com medicamentos para ereção, suplementos ou produtos vendidos como estimulantes sexuais.

A disfunção erétil não é apenas uma questão de desempenho. Em alguns casos, pode ser um sinal de que algo na saúde precisa ser investigado.

No fim, talvez a pergunta mais útil não seja simplesmente “por que eu falhei?”, mas “o que estava acontecendo comigo antes e durante aquele momento?”

“A ereção não é um botão que o homem aperta quando decide que quer ter uma relação sexual. Ela é uma resposta complexa do organismo. Quando existe uma dificuldade persistente, o mais importante é abandonar a ideia de fracasso e investigar o que está interferindo nessa resposta. Muitas vezes, tratar o fator que está por trás do problema é também recuperar a confiança na própria vida sexual.”

FONTE: iG deles

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