UM DIABÉTICO – Hemoglobina glicada: o que esse exame revela sobre o controle do diabetes.
Exame mostra a média da glicose nos últimos três meses e ajuda a avaliar o controle do diabetes, riscos à saúde e possíveis ajustes no tratamento.
Tom Bueno*
A hemoglobina glicada é um dos exames mais utilizados no acompanhamento de pessoas que convivem com diabetes. Diferentemente da glicemia medida no dia a dia, esse teste permite avaliar o comportamento da glicose ao longo do tempo.
Nesse sentido, entender o que esse número representa ajuda não apenas na leitura do exame, mas também nas decisões que impactam diretamente o tratamento e a rotina de cuidados.
O que é a hemoglobina glicada
A hemoglobina glicada, conhecida como HbA1c, mede a porcentagem de glicose ligada à hemoglobina, proteína presente nos glóbulos vermelhos do sangue.
Como essas células permanecem em circulação por cerca de três meses, o exame reflete a média da glicose nesse período. Portanto, não se trata de um valor pontual, mas de um histórico glicêmico.
Além disso, o exame não sofre grande influência de um único dia de glicose alta ou baixa, o que reforça sua importância clínica.
Para que serve esse exame na prática
A hemoglobina glicada é usada tanto para auxiliar no diagnóstico quanto para acompanhar a eficácia do tratamento do diabetes.
Valores iguais ou superiores a 6,5% confirmam o diagnóstico. No acompanhamento, o exame orienta ajustes em medicações, doses de insulina, alimentação e atividade física.
Nesse contexto, ele funciona como uma bússola clínica, ajudando a equipe de saúde a avaliar se o plano terapêutico está adequado.
Quais são os valores considerados adequados
De forma geral, as diretrizes apontam que pessoas sem diabetes apresentam HbA1c abaixo de 5,7%.
Valores entre 5,7% e 6,4% indicam risco aumentado para diabetes. A partir de 6,5%, o diagnóstico é estabelecido.
Para quem convive com diabetes, o alvo mais comum é manter a hemoglobina glicada abaixo de 7%. Ainda assim, esse objetivo deve ser individualizado, considerando idade, tipo de diabetes e risco de hipoglicemia.
O que a hemoglobina glicada alta pode indicar
Quando a hemoglobina glicada está elevada, isso sugere que a glicose permaneceu acima do recomendado por períodos prolongados.
Com o tempo, esse cenário aumenta o risco de complicações cardiovasculares, renais, neurológicas e oftalmológicas.
Além disso, uma HbA1c alta pode sinalizar dificuldades de adesão ao tratamento, acesso limitado à tecnologia ou barreiras emocionais que impactam o controle do diabetes.

Hemoglobina glicada baixa também merece atenção
Por outro lado, valores muito baixos nem sempre significam bom controle.
Em algumas situações, eles podem indicar episódios frequentes de hipoglicemia, inclusive durante o sono ou sem percepção clara.
Por isso, especialmente em crianças, idosos e pessoas com histórico de hipoglicemias graves, esse dado deve ser analisado com cautela.
Limitações importantes do exame
Apesar de essencial, a hemoglobina glicada não deve ser interpretada isoladamente. Condições como anemia, doenças hematológicas, insuficiência renal, gravidez e alterações na vida útil das hemácias podem interferir no resultado.
Além disso, o exame não revela variações diárias nem mostra quanto tempo a glicose ficou alta ou baixa ao longo do dia.
Tempo no alvo: o novo parâmetro com o uso do CGM
Com a popularização do monitoramento contínuo da glicose, um novo indicador ganhou destaque: o tempo no alvo, conhecido como Time in Range.
Esse parâmetro mostra quanto tempo a glicose permanece dentro da faixa recomendada, geralmente entre 70 e 180 mg/dL.
Nesse cenário, duas pessoas podem ter a mesma hemoglobina glicada, mas perfis completamente diferentes de controle glicêmico.
Enquanto uma pode apresentar grandes oscilações, a outra mantém maior estabilidade ao longo do dia. Por isso, sociedades médicas recomendam analisar o tempo no alvo junto com a HbA1c.
Por que a hemoglobina glicada pode não contar toda a história
Estudos científicos mostram que diversos fatores podem influenciar a hemoglobina glicada sem refletir, necessariamente, a média real da glicose.
Alterações genéticas, inflamações crônicas, doenças renais e diferenças no metabolismo das hemácias estão entre os fatores descritos.
Uma revisão publicada na revista Diabetes Care aponta que a HbA1c pode superestimar ou subestimar o controle glicêmico em determinados perfis de pessoas.
Nesse contexto, especialistas reforçam que nenhum número deve ser analisado fora da história clínica e dos dados do monitoramento contínuo da glicose.
Portanto, o cuidado em diabetes caminha para uma avaliação mais completa, que considera médias, variabilidade, segurança e qualidade de vida.
** é jornalista experiente, com mais de 17 anos de carreira em televisão, tendo atuado como repórter e apresentador nas principais emissoras do país. Diagnosticado com diabetes tipo 1 aos 22 anos, transformou sua trajetória pessoal em uma missão profissional. Além de liderar o site Um Diabético, também realiza documentários e curtas com foco em saúde e impacto social. É reconhecido como um dos principais porta-vozes do diabetes no Brasil, dando voz e visibilidade a milhares de pessoas que convivem com a condição.


