“FOI UM DESCASO COM MINHA MÃE” – Idosa passa 17 dias entre UPA e hospitais de Goiânia e volta para casa sem diagnóstico. VÍDEO.

Após 17 dias entre UPA, Hetrin, Hospital das Clínicas e Heapa, uma idosa de 68 anos foi mandada de volta para casa sem cirurgia e sem diagnóstico preciso. Paciente teve suspeita de câncer sem exames conclusivos e precisou acionar Ministério Público e Defensoria Pública.

Roberto Naborfazan

De acordo com a pesquisa Confiança em Instituições Públicas na América Latina e no Caribe, realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado na segunda-feira (9/2), a satisfação dos brasileiros com o Sistema Único de Saúde (SUS) cresceu 9 pontos percentuais entre 2022 e 2025, passando de 34% para 45%. O índice brasileiro está acima da média latino-americana, que é de 40% em 2025.

O SUS é referência em procedimentos de alta complexidade, como transplantes de órgãos, e atua de forma integral desde a prevenção até o tratamento.

Apesar dos avanços, o sistema enfrenta críticas relacionadas ao tempo de espera elevado, falta de profissionais em certas regiões e infraestrutura deficiente em alguns hospitais.

Em Goiás, as principais reclamações da população incluem o atendimento com certo despreparo por parte de médicos,  grande parcela deles recém-formados, em geral com doses de arrogância e prepotência; a ineficiência do Sistema de Regulação de vagas da capital e do estado, tantos para consultas e exames, quanto para cirurgias eletivas e de urgência; e a preocupação com as Organizações Sociais de Saúde (OSS), entidades privadas, “sem fins lucrativos”, que firmam contrato de gestão com o poder público para gerenciar unidades de saúde do SUS (hospitais, UPAs, AMEs), mas que visam economizar recursos em detrimento dos atendimentos aos pacientes.

Assista ao vídeo resumo sobre este conteúdo.

A reportagem do Jornal O VETOR acompanhou nos últimos dias o caso da paciente D. da S. E.,  68 anos de idade, moradora de Goiânia, com um quadro de MIOSITE INFECCIOSA (Tumor rígido) na perna esquerda, que depois de 17 dias perambulando entre a UPA/CIAMS do setor Jardim América, onde ficou quinze dias “internada”, o Hospital Estadual de Trindade (HETRIN), o Hospital das Clínicas e o Hospital Estadual de Aparecida e Goiânia, onde passou cinco dias internada, foi enviada de volta para casa, sem tratamento, sem cirurgia, com diagnósticos equivocado (inclusive de câncer e com possibilidade de amputação da perna) que a levaram ao quadro de desestabilidade emocional.

Com tumor na coxa e precisando de atendimento médico de urgência, paciente foi mandada de volta para casa após 17 dias em UPA  e hospitais.

Percurso inútil e doloroso

D. da S. E., acompanhada pelas filhas e o esposo, deu entrada na UPA/CIAMS do setor Jardim América no dia 27 de janeiro. Após primeira avaliação, o médico que a atendeu diagnosticou a MIOSITE INFECCIOSA pediu internação cirúrgica, avaliações clinicas, exames de ressonância magnética, entre outras providências. Veja abaixo o conteúdo do Laudo para Solicitação de Autorização para Internação Hospitalar.

Dois dias depois, no dia 29 de janeiro, surgiu uma vaga para internação cirúrgica da paciente no Hospital Estadual de Trindade (HETRIN), cuja gestão é de responsabilidade do Instituto de Medicina, Estudos e Desenvolvimento (Imed), sob supervisão da Secretaria Estadual de Saúde.

Sem uma ambulância ou qualquer outro veículo disponibilizado pele Prefeitura de Goiânia, gestora da unidade da UPA/CIAMS, por volta do meio-dia, os familiares de D. da S. E., a colocaram em veículo particular e a levaram até o HETRIN, na esperança da internação e de tratamento adequado.

Com um tumor na perna, sentindo febre e fraqueza, a paciente ficou até as 17:00h sentada em uma cadeira de rodas na recepção do hospital, quando, de acordo com os familiares, um médico, em poucos minutos, sem nenhum tipo de exame específico, nem mesmo um Raio X, determinou que o caso precisava de avaliação em “hospital de câncer”, com complexidade urgente.

Os familiares questionaram como ele poderia chegar a essa conclusão sem realizar nenhum exame. Sem dar respostas, o médico DEVOLVEU a paciente para a UPA/CIAMS do setor Jardim América, onde queriam que a paciente iniciasse todo o processo de triagem para novamente “ver a possibilidade” de aguardar a vaga de internação. Depois de muita argumentação e estrese, D. da S. E foi aceita de volta na unidade. Uma onda de tristeza e decepção tomou conta da paciente e dos familiares.

Com vaga assegura da na unidade, sem realizar nenhum exame, médico do HETRIN devolve paciente e sugere tratamento oncológico.

Um detalhe chamou a atenção da paciente e de seus familiares, a VAGA no HETRIN permaneceu aberta até o dia 30, até ser encerrada “por estar mais dias sem ocupação do leito do que o parametrizado.”

A família continua fazendo a seguinte pergunta: Porque não a internaram e fizeram exames necessários para, ao menos, um pré-diagnóstico com dados mais objetivos?

De volta à UPA/CIAMS, sem exames e medicamentos específicos para o seu caso, a paciente permaneceu em uma maca por mais 30 horas, até que uma nova vaga surgiu para o HOSPITAL DAS CLÍNICAS no dia 30 de janeiro.

Renasceu a esperança na paciente e nos familiares de que tudo seria resolvido, pois o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC-UFG), gerido pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) , é um hospital geral de alta complexidade em Goiânia, que  oferece diversas especialidades médicas, cirúrgicas e áreas de referência como cardiologia, neurologia, nefrologia, TRAUMATO-ORTOPEDIA, ONCOLOGIA, ginecologia-obstetrícia (alto risco), UTI adulto e neonatal, além de cirurgias plásticas e bucomaxilofacial.

“Infelizmente foi mais um momento de decepção, tristeza, desesperança e sensação de impotência”. Disse uma das filhas que acompanhava a mãe.

Segundo a filha, o médico se baseou na avaliação feita pelo médico que fez o atendimento no HETRIN, citou uma Ressonância Magnética – RM (que não foi realizada nem no HETRIN e nem no HC, e DEVOLVEU novamente a paciente para a UPA/CIAMS do Setor Jardim América, sugerindo que ela fosse encaminha para avaliação no Hospital Araújo Jorge ou no Complexo Oncológico de Referência do Estado de Goiás (CORA), conforme Ficha de Retorno (Contra Referência) abaixo.

“Não conseguimos entender como uma Hospital de referência e com tantas especializações, inclusive traumato-ortopedia e oncologia, devolveu minha mãe para uma UPA, sem fazer nem mesmo um exame de sangue. O médico disse que foi feita Ressonância Magnética no HETRIN. Lá mal colocaram a mão na perna dela, o exame foi feito somente de olhar, um descaso com minha mãe, que foi para ser internada e passou uma tarde inteira em uma cadeira de rodas para ser mandada de volta sem nem mesmo tomar uma novalgina. O pior foi que pedimos para o médico do HC para não falar nada para minha mãe sobre a possibilidade de câncer, mas ele, de forma arrogante, disse que a paciente tinha que saber e falou pra ela de maneira groseira e direta”. Desabafa a filha.

Novamente sem nenhum exame realizado, médico do Hospital das Clinicas devolveu paciente e sugeriu o Hospital Araújo Jorge.

Ao ver D. da S. E visivelmente abalada com esse diagnóstico, os familiares pediram autorização na UPA/CIAMS do Jardim América para fazer exames em uma Clínica Particular, enquanto aguardava uma vaga internada ali mesmo, o que foi concedido.

Na virada do dia 30 para o dia 31, uma nova vaga surgiu para o HOSPITAL ESTADUAL DE APARECIDA DE GOIÂNIA – HEAPA. No entanto, a equipe plantonista decidiu recusar “porque o caso da paciente era oncológico, e ela seria devolvida novamente”. Tudo isso ainda sem um exame especifico.

Sequência de atualizações nos pedidos de vagas e os vários pedidos de correções ou alterações feitos pelo Sistema de Regulação de Goiânia.

No dia 1º de fevereiro um exame de Ressonância Magnética, custeada pela família, foi realizado em Clinica Particular.

Exame feito pela família em Clínica Particular.

O laudo apontou uma série de detalhes ortopédicos, citando inclusive osteonecrose, mas nada relacionado a situação oncológica, o que deu certa tranquilidade à paciente e seus familiares.

Com D. da S. E ainda aguardando vaga na UPA/CIAMS, sem medicação e atendimento adequado, os familiares recorreram ao MINISTÉRIO PÚBLICO DE GOIÁS no dia 03/02.

A DEFENSORIA PÚBLICA ESTADUAL- DPE, entrou em ação e determinou que a Secretaria de Saúde do município de Goiânia e a Secretária de Saúde do estado de Goiás disponibilizasse vaga para a paciente em prazo de 24 horas.

Sem a disponibilização da vaga, a DEFENSORIA PÚBLICA ESTADUAL- DPE autorizou o bloqueio de R$ 90,000,00 mil reais para o procedimento cirúrgico, sendo R$ 45.000,00 da Secretaria de Saúde do município de Goiânia e R$ 45.000,00 da Secretária de Saúde do estado de Goiás.

O bloqueio da parte destinada ao Estado de Goiás foi imediatamente disponibilizado para bloqueio.

No entanto, rapidamente surgiu uma nova vaga para o HOSPITAL ESTADUAL DE APARECIDA DE GOIÂNIA – HEAPA, onde, conforme informações dos familiares, D. da S. E realizou exames laboratoriais e permaneceu tomando medicamentos não especificados, por quatro dias.

No dia 11, ao ser requisitado pela Defensoria Pública que fosse realizado o bloqueio dos 45.000,00 da Secretaria de Saúde do município de Goiânia, a pasta alegou não ser mais necessário o bloqueio devido a paciente já estar internada e com previsão de cirurgia.

No entanto, na manhã do dia 12, a paciente e seus familiares foram surpreendidos com o comunicado realizado pela direção da Unidade que seria mandada de volta para casa, com possibilidade de retorno para consultas.

Apresentaram um resumo de alta para a filha que acompanhava a paciente naquele momento para que ela assinasse.

“Me recusei a assinar, porque estava escrito que tinham feito vários procedimentos na perna da minha mãe, mas eu a acompanhei o tempo todo e nada disso foi feito, eles estavam se baseando no resultado dos exames que pagamos em clínica particular”. Denúncia a filha.

Filha da paciente não assinou o resumo de alta por haver várias inconsistências.

Procuramos a direção da Organização Social de Saúde Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus (OSSHMTJ), gestora do HEAPA, sob supervisão da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO).

A reportagem do Jornal O VETOR tentou falar com a diretora técnica, doutora Dandara Oliveira, ou com o coordenador administrativo, Natan Felipe do Vale, mas fomos informados, por volta do meio dia, que eles haviam saído para reunião externa e só retornariam as 17:00h.

Pedimos para falar então com a diretora-geral, Cristiane Aparecida Pavão Monteiro, que, por meio de um assessor, disse que o caso era de competência do setor da doutora Dandara, e não nos recebeu.

Questionamos o assessor se, ela como DIRETORA-GERAL, não tem responsabilidade sobre todos os setores da unidade e se, já que ela era a única do alto escalação da direção presente, não poderia nos conceder alguns minutos de esclarecimentos sobre a alta dada a uma paciente sem o procedimento cirúrgico necessário.

Aguardamos por duas horas na recepção do Hospital e a DIRETORA-GERAL Cristiane Aparecida Pavão Monteiro não apareceu e nem enviou posicionamento.

Depois de 17 dias, paciente voltou para casa com um relatório médico “corrigido”, um documento semi-prenchido, e nenhuma solução para seu problema de saùde.

No final do dia 12 de fevereiro, 17 dias após dar entrada na UPA/CIAMS do Setor Jardim América, levando um ENCAMINHAMENTO DO PACIENTE PARA OUTRA UNIDADE parcialmente preenchido, e um relatório médico com conteúdo equivalente aos que foram feitos na UPA/CIAMS do Setor Jardim América (Veja abaixo), a paciente D. da S. E, 68 anos de idade, foi mandada de volta para casa, sem a realização da cirurgia, sem um diagnóstico preciso, com várias dúvidas sobre seu real estado de saúde e abalada emocionalmente.

Também desgastada e desolada, a família voltou a recorrer ao Ministério Público Estadual e estão a espera que, enfim, D. da S. E possa ser respeitada como cidadã, como idosa, como paciente com um quadro grave, que precisa de atenção e comprometimento dos profissionais que trabalham na área da saúde em Goiânia e em Goiás.

Análise do caso

O caso de D. da S. E. não é apenas a história de uma paciente que percorreu quatro unidades de saúde em 17 dias. É o retrato de um sistema que, apesar dos números positivos apresentados em pesquisas institucionais, ainda falha gravemente quando confrontado com situações concretas que exigem responsabilidade técnica, coordenação e humanidade.

Ao longo do percurso, houve diagnósticos precipitados, inclusive com menção a câncer e possibilidade de amputação, sem a realização prévia de exames básicos. Houve devoluções sucessivas entre unidades hospitalares, decisões médicas tomadas sem respaldo em exames objetivos, divergências de informações nos relatórios e até a apresentação de um resumo de alta com procedimentos que, segundo a família, não teriam sido realizados. Soma-se a isso a recusa de vagas sob justificativas contraditórias, a permanência prolongada em maca sem tratamento específico e a ausência de clareza quanto à condução clínica do caso.

Não se trata de um erro isolado ou de uma intercorrência inevitável. O que se observa é uma sucessão de equívocos, falhas de comunicação, fragilidade na triagem e evidente desorganização no fluxo de regulação de vagas — tanto municipal quanto estadual. A paciente transitou entre UPA, hospital estadual, hospital federal e novamente hospital estadual, sem que houvesse uma definição clínica consistente ou uma condução integrada do caso.

A regulação, que deveria funcionar como instrumento técnico de organização e encaminhamento eficiente, mostrou-se burocrática, lenta e desconectada da realidade clínica. Em vez de garantir acesso rápido ao tratamento adequado, o sistema acabou prolongando o sofrimento físico e emocional da paciente e de seus familiares.

Também chama atenção o despreparo relatado no atendimento: avaliações superficiais, comunicação inadequada de possíveis diagnósticos graves, postura considerada arrogante por familiares e ausência de exames mínimos antes de conclusões extremas. A medicina exige prudência, responsabilidade e empatia — sobretudo quando se trata de uma idosa, em estado febril e com dor intensa.

O silêncio institucional diante dos questionamentos da reportagem e a dificuldade de acesso à direção da unidade reforçam a sensação de falta de transparência. Quando a informação não é prestada, a desconfiança cresce.

O SUS é, inegavelmente, um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo e acumula conquistas importantes. No entanto, casos como o de D. da S. E. evidenciam que a qualidade do atendimento na ponta, a qualificação profissional contínua e a eficiência do sistema de regulação precisam ser urgentemente aprimoradas em Goiânia e em Goiás.

Mais do que números de satisfação, o que legitima um sistema de saúde é a capacidade de resolver casos concretos com técnica, agilidade e respeito.

D. da S. E. ainda aguarda uma solução definitiva para seu quadro clínico. Sua história não pode ser reduzida a um protocolo mal preenchido ou a uma vaga recusada. Ela representa milhares de pacientes que dependem exclusivamente do sistema público e que não podem continuar sendo submetidos a peregrinações médicas, diagnósticos apressados e decisões administrativas desconectadas da realidade humana.

A saúde pública não pode falhar quando a vida está em jogo.

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