DENÚNCIA – Assentamento Esusa e o caso Genivaldo dos Santos.

Genivaldo dos Santos nasceu em 1963 em Nossa Senhora das Dores/SE e veio para Goiás na adolescência, durante a década de 70, auge da ditadura militar, para trabalhar na Fazenda Alves Grande, do Major Filipe. Não há registros na carteira de trabalho do Genivaldo desse período e nem registros de contribuição ao INSS, pois trabalhos análogos a escravidão eram aceitos durante aditadura militar, principalmente se o patrão fosse um militar.
A Fazenda Alves Grandes ainda hoje é um latifúndio decadente, que ostenta enormes terra griladas e improdutivas. Grilar enormes áreas de terras e expulsar os povos nativos eram atividades comuns realizadas, aqui no Centro-Oeste, por militares e empresários que apoiavam a ditadura militar.
Latifundiários (grileiros, empresários que apoiavam a ditadura militar e militares)
contratavam pistoleiros para expandir suas áreas, assegurar o domínio de áreas já griladas e garantir que os trabalhadores escravizados não se rebelassem contra o patrão.
Assim como muitos outros nativos, Almerinda Garcês de Melo e seus descentes são vítimas desses pistoleiros e grileiros. Viúva do primeiro marido e com dois filhos, teve parte de suas terras reivindicadas por pistoleiros como propriedade do Major Filipe e incorporadas à Fazenda Alves Grande. Então Almerinda entrou mais para dentro do cerrado rumo aos rios Tapagem, Jacobeira, Cedro e Couros. Casando-se outra vez, Almerinda teve mais 9 filhos com Clidionor Barreto de Melo.
Então estabelecidos em outro ponto de suas terras, Almerinda e Clidionor são vítimas de grilagem mais uma vez. Almerinda e Clidionor tiveram parte de suas terras reivindicas, agora como propriedade de empresários. Esses empresários se diziam donos das terras onde Almerinda e Clidionor estavam, chamando o lugar de Esusa. Esse lugar onde Almerinda e Clidionor viveram e criaram seus 10 filhos (uma morreu) então virou a Fazenda Esusa e futuramente seria o Assentamento Esusa. É nesse Assentamento que está localizado o famoso Rio dos Couros, que tem as famosas Cataratas do Rio dos Couros.
É comum ainda hoje ver pessoas acreditando que os proprietários da terra são grileiros que escrituraram e venderam as terras. No entanto, as terras pertencem de fato a quem nela trabalha, vive e tira seus sustento. A própria Constituição de 1988 assegura este direito. No entanto os fatos aqui narrados são antes da redemocratização e consequentemente antes da Constituição de 1988.
Almerinda e Clidionor juntamente com todos os seus descendentes são os legítimos donos da terra pois lá trabalhavam, viviam e tiravam o seu sustento. Os ancestrais de Almerinda e Clidionor já vivem nessa região do nordeste goiano muito antes de grileiros, militares e empresários invadirem e grilarem essas terras. Desta forma, pode-se afirmar com segurança que as terras da Fazenda Esusa pertenciam a Almerinda e Clidionor e ainda hoje pertence aos seus descendentes.
Entre os filhos e as filhas de Almerinda e Clidionor está Jusleide de Fátima Barreto. Em 1983 Jusleide e Genivaldo, que se conheceram pela redondeza, vão morar e trabalhar em fazendas vizinhas.
Depois foram morar na cidade de Alto Paraíso de Goiás. Genivaldo acha um emprego na estatal conhecida como CRISA. Nesse período, eles chegaram a ocupar um pedaço de terra na Esusa, mas, por conflitos familiares, desistiram. No CRISA, Genivaldo trabalha por 11 anos e em 1996 adere a um programa de demissão incentivada, pensando em levantar algum dinheiro e voltar para a roça. Mas leva um calote do governo do Estado de Goiás. Durante esse período que Genivaldo estava no
CRISA, em 1993, a Fazenda Esusa foi desapropriada pelo Governo Federal e vira Assentamento Esusa. Decidido então a ter seu pedaço de terra, Genivaldo volta para Esusa. Inicialmente ele ficou acampado com os Sem Terra do MST, mas depois se fixou onde hoje é o lote 27 do Assentamento.
Genivaldo dos Santos participou ativamente da vida no Assentamento e deu suporte ao
INCRA para concepção de todo o projeto do Assentamento Esusa. Juntamente com os engenheiros e técnicos do INCRA dividiu os lotes estrategicamente de forma que a maioria dos lotes tivesse acesso à água. No projeto original havia áreas comunitárias, áreas destinadas a reserva ecológica e áreas destinadas ao turismo de aventura e contemplação.
Naquela região há muitos mananciais e biodiversidade, por isto todo cuidado para a exploração sustentável do lugar foi considerado no planejamento e execução.
Os lotes então foram entregues e por algum motivo o INCRA abandonou o Assentamento durante a execução do projeto. Da forma que o INCRA saiu, deixou dúvida de qual era o real projeto do INCRA para o Assentamento Esusa. Até hoje não se sabe qual é o novo projeto do INCRA, já que após abandonar o primeiro, nenhum outro foi apresentado.
Genivaldo. com alguns outros assentados, tentaram dar continuidade ao projeto original, mas não teve sucesso.
Devido ao abandono do INCRA, pistoleiros e toda horda de mal feitores viram novamente uma oportunidade de se darem bem na Esusa e para lá migraram. Em 2007, Genivaldo dos Santos, que tinha se consolidado como uma liderança comunitária, foi assassinado no Assentamento Esusa.
No inquérito policial consta que o Genivaldo foi assassinado na Fazenda do Raimundo Nonato dos Santos. No entanto, Raimundo nunca foi assentado e nunca teve Fazenda na Esusa.
Raimundo chegou para aquela região para ser pistoleiro do Major Filipe. Até hoje os reais motivos do assassinato são desconhecidos. Especula-se a atividade de uma organização criminosa de tráficos de drogas e grilagem de terras com participação de autoridades locais (policiais, delegados e promotores) que tinham interesse em abafar o caso.
Recentemente o caso do assassinato do Genivaldo dos Santos ganhou destaque novamente, após um dos filhos de Genivaldo e Jusleide fazer um comentário sobre esse caso em um grupo do Facebook de cidadãos de Alto Paraíso de Goiás.
O povo do município de Alto Paraíso de Goiás não pode ter medo da verdade. São os bandidos que têm que andar com medo. São os bandidos que têm que ter medo da lei e da justiça.
As instituições de segurança pública do Estado de Goiás e as instituições do Poder Judiciário têm literalmente fechado os olhos para os crimes cometidos nessa região há anos.
Mas ficam as seguintes perguntas: Até onde é descaso? Até onde é incompetência? Até onde as “autoridades” locais não estão envolvidas? Quem matou, quem mandou matar Genivaldo dos Santos e por quê? Quem deu fuga aos bandidos? Quem tem interesse em abafar esse caso? Quem tem interesse que o Assentamento Esusa continue irregular? Como esse caso do assassinato de Genivaldo dos Santos está sem solução até hoje? Por que do nada o projeto do Assentamento Esusa foi interrompido sem explicação alguma e sem dar satisfação alguma aos assentados?
Estas perguntas gritam por resposta até hoje. Precisamos apurar, identificar todos os criminosos e punir todos. Doa a quem doer.