POLÊMICA EXPLODE EM ESCOLA – denúncia de alunos e resposta de professora expõem conflito entre fé e ciência.
Denúncias de alunos, reação de pais e um longo relato da professora colocaram uma escola pública de Alto Paraíso de Goiás no centro de uma polêmica sobre religião em sala de aula, levantando discussões sobre fé, ciência e liberdade de expressão no ambiente escolar.
Roberto Naborfazan
O Colégio Estadual Doutor Gerson de Faria Pereira, em Alto Paraíso de Goiás, região da Chapada dos Veadeiros, volta ao centro de polêmica envolvendo professores, direção e alunos.
Há exatos dois anos, em março de 2024, uma professora trans foi exposta, ao ter fotos suas divulgadas sem autorização, após emprestar o celular para que alunos registrassem uma atividade durante ações escolares relacionadas ao Dia da Consciência Negra. Na época, a situação virou caso de Polícia.
Dessa vez, alunos da 9ª série se sentiram incomodados com falas da professora de história, Kelly Cristina Martins, sobre crenças e religiões. Ao tomarem conhecimento, alguns pais também resolveram se posicionar e acionaram a direção da escola.
Por meio de abaixo-assinado, os alunos alegam insatisfação, indignação e preocupação em relação a situações ocorridas durante as aulas da referida professora.
Por sua vez, pais e responsáveis pelos alunos apresentaram a direção da unidade escolar, por escrito, relato de situações ocorridas em sala de aula envolvendo a professora.
As manifestações apontam;
1 – Assédio moral e desrespeito direto aos alunos após:
– Falas ofensivas e desrespeitosas
– Dizer que aluno “não vai ser nada na vida”
– Chamar estudantes de “trabalhadores de quinta categoria”
– Atacar a fé dos alunos
2 – Agir de forma inadequada profissionalmente ao abordar em sala de aula conteúdos inapropriados para menores como:
– Falar sobre sair da igreja pra “beijar” e “transar” com alunos do 6º ano
3 – Ferir o princípio do respeito a diversidade dentro da escola, com discriminação religiosa e política ao:
– Comparar Jesus com político e ofender ambos
– Criticar a fé dos alunos
4 – Faltar com a ética profissional e no compromisso com o ensino ao:
– Dizer que “vai ganhar o dinheiro de qualquer jeito”.
– Impactar com suas falas a aprendizagem do conteúdo de alguns alunos.
– Gravar alunos sem autorização e sem consentimento dos responsáveis.
Ambos os documentos são datados em 11 de março de 2026. (Leia os prints abaixo)
Relatos dos pais.

Abaixo-assinado pelos alunos

No entanto, de acordo com o professor Marcelo Pires, professor de história que fez sua dissertação sobre a temática, a BNCC não estabelece, de maneira explícita, os conteúdos propostos para o ensino de diferentes religiões. Ele destaca que, na maioria das escolas, não há professores com formação superior em Ciências da Religião para lecionar esta matéria, o que faz com que professores de outras disciplinas assumam a função. Além de estes não terem preparo para o ensino das ciências da religião, não há oferta de capacitação para formar esses professores.
No episódio atual, que agita o Colégio Estadual Doutor Gerson de Faria Pereira, a polêmica se desenvolveu devido a descrença em religiões por parte da professora (declaradamente ateia) e as crenças religiosas dos alunos e seus pais.
Provocado pela comunidade, o Jornal O VETOR além de trazer as demandas, documentos e vídeo apresentados por alunos, pais e responsáveis, buscou também posicionamentos da direção do colégio, da coordenação regional de educação, e da professora Kelly Cristina.
O que diz a direção
Procurada para falar sobre o assunto, a diretora do Colégio Estadual Doutor Gerson de Faria Pereira, Graciela Mundim, enviou alguns documentos, que foram apagados na sequência, e não mais se posicionou até o fechamento desta reportagem. O espaço continua aberto.
O que diz a coordenadora regional de educação
A reportagem do Jornal O VETOR pediu também posicionamento da Coordenadora Regional de Educação, professora Sirleide Alves Sousa, que nos enviou a seguinte nota.
“A respeito do ocorrido no Colégio Estadual Dr. Gérson, informamos que se tratou de uma situação pontual, envolvendo uma professora recém-empossada na rede, que, durante uma aula, conduziu uma discussão que tomou um direcionamento diverso do previsto, gerando desconforto entre alguns estudantes.
Assim que a equipe gestora tomou conhecimento, houve pronta atuação, com a presença da coordenação na unidade escolar para compreender os
fatos, dialogar com a profissional e realizar as devidas orientações pedagógicas.
Ressaltamos que, por se tratar de uma docente em início de atuação na rede, esse momento também se configura como oportunidade de formação e alinhamento com os princípios, diretrizes e valores que norteiam nosso trabalho.
Seguimos comprometidos com uma educação de qualidade, pautada no respeito, no diálogo e no desenvolvimento integral dos estudantes, fortalecendo continuamente nossas equipes para garantir um ambiente escolar seguro, acolhedor e formativo.

O que diz a professora
Com foco no jornalismo comunitário, e cumprindo a ética recomendada pelo bom jornalismo, o Jornal O VETOR sempre deu voz à todas as pessoas envolvidas ou citadas em nossas reportagens.
Nesse caminho, procuramos a professora Kelly Cristina que se posicionou da seguinte forma.
O Silêncio da Ciência e o Grito do Dogma: Meu Relato como Professora de História
Kelly C. Martins @kcgaiaviva
Como professora de História, minha missão sempre foi abrir janelas para o mundo, estimulando o pensamento crítico e o respeito à diversidade cultural, sempre com base em evidências e pesquisas científicas. No entanto, recentemente, as janelas da escola onde leciono foram fechadas à força por um fundamentalismo religioso por grande parte da comunidade escolar, que muitas vezes confunde gestão educacional com arbítrio baseado em dogmas e crenças bíblicos.
Destaco que defendo o Estado Laico, pois a escola não pode privilegiar uma cosmologia (religiosa da teologia dominante) em detrimento da ciência em sua gestão administrativa. Por isso, em minhas aulas defendo sempre a liberdade de expressão, a diversidade cultural e de crenças. Inclusive, em meu planejamento de aulas para Ensino religioso está previsto ensinar aos estudantes a história e a cosmologia de todas as religiões, e não apenas de uma religião, como historicamente acontece na maioria das escolas desse país. Para uma cultura de paz e respeito pela diversidade de crenças, defendo que os estudantes devem aprender a respeitar todas as crenças e descrenças. E que se alguém apresenta seus motivos pessoais de crenças e descrenças, isso não é ofensa pessoal. Vamos aos fatos:
A Aula que Virou Interrogatório
Tudo começou em uma aula regular sobre Pré História e Evolucionismo. Ao apresentar as bases científicas que sustentam a origem das espécies, o conteúdo inevitavelmente tensionou as visões criacionistas de alguns alunos. Fui questionada sobre minha fé, sobre qual era minha religião. Com a transparência que a ética docente exige, respondi que não possuo religião nem crenças em divindades, explicando brevemente as razões filosóficas da minha descrença, que sou uma profissional das Ciências Humanas, e que após estudar História deixei de acreditar em deuses ou espíritos.
Os motivos que expliquei aos estudantes porque não acredito na religião dominante cristã são:
Como exemplo, expliquei aos estudantes que a transposição literal de mitos arcaicos para a contemporaneidade, especialmente passagens que narram Jesus agindo com violência no templo contra judeus, ofendendo, derrubando bancas, chicoteando pessoas e prejudicando pequenos comerciantes, é altamente prejudicial quando adotada como moral social hoje.
Expliquei também que tais narrativas, se adotadas como modelos de conduta para os dias atuais, como muitos religiosos pregam, legitimam comportamentos agressivos, intolerantes e disruptivos, contrariando normas básicas de convivência civilizada, respeito à propriedade privada e à ordem pública.
Do ponto de vista social e psicológico, estimular a raiva e a agressão física contra grupos com os quais se discorda — sejam comerciantes, judeus ou qualquer outro segmento, citei os frequentes casos de ataque às religiões de matrizes africanas – promove a radicalização e a violência, quebrando laços comunitários e fomentando um ambiente de caos, insegurança e até guerras.
Da mesma forma, os preceitos bíblicos ensinados por Jesus de abandonar a família, vender todos os bens, doar tudo, e viver como andarilho indigente para pregar o evangelho aos quatro cantos do mundo são prescrições desadaptativas para a vida moderna, podendo causar danos financeiros irreversíveis e traumas familiares graves.
A imposição dessa moral cristã de desapego extremo, típica de comunidades apocalípticas de dois mil anos atrás, incentiva a irresponsabilidade financeira e a negligência afetiva. Quando adotadas na íntegra, essas condutas exigem uma cisão total com a realidade prática — sustento financeiro, segurança e relacionamentos — o que pode levar à dissociação cognitiva e a quadros psíquicos graves, podendo apresentar até sintomas de esquizofrenia por quem praticar tais atos, configurando uma fuga da realidade em vez de uma vivência ética e equilibrada nos dias de hoje.
Contudo, religiosos fundamentalistas interpretaram isso como ofensa pessoal, de forma totalmente equivocada, afirmaram que eu acusei seu deus como mendigo ou esquizofrênico, sendo que eu apenas trouxe isso para o contexto atual, de que ninguém deveria tomar esses contos como referência para comportamento atual.
Destaco que geralmente religiosos fundamentalistas não conseguem aceitar pessoas que pensam diferente de suas crenças e dogmas, porque não entendem conceito de cultura, e acreditam que alguém afirmar que não crê em suas crenças é uma ofensa pessoal.
Por isso, ao retornar nessas salas de aula, e até em reunião diante de mães , pais e direção da escola, pedi desculpas aos todos e todas, pois nunca foi minha intenção ofender ninguém. O que aconteceu foi um forte ruído na comunicação, especialmente de quem não aceita uma visão diferente de mundo que não a sua. Expliquei que é preciso entender que expor opinião pessoal ou questionar dogmas e crenças não deve ser interpretado como uma ofensa pessoal, pois a fé, longe de ser uma construção exclusivamente individual, é muitas vezes uma imposição social de onde você nasceu.
Expliquei que como cientista da área de ciências humanas, religião e valores culturais não são escolhas pessoais, mas sim uma imposição cultural e social internalizada, assimilada desde a infância como parte do ambiente em que o indivíduo nasce. Ao herdarmos a língua, os costumes e, por extensão, a religião de nossa comunidade, somos moldados por um sistema de crenças que reflete a tradição, e não necessariamente uma escolha racional e autônoma.
Expliquei ainda que as leis exigem que respeitemos as pessoas e suas propriedades, que eu não estava atacando a liberdade de crença, não estava impondo minha crença a ninguém, nem proibindo ninguém de ter sua religião. Que minha descrença veio após questionar dogmas religiosos e que crenças são ideias, e ideias podem ser questionadas, conforme seu conteúdo tenha fundamento ou não.
Questionar crenças ou dogmas não é ofensa pessoal a ninguém. Assim, é preciso que se separe o indivíduo de sua cultura e crenças, e que contrapor dogmas e crenças não se trata de ofensa e ataque pessoal.
Portanto, ao dispor-se contra dogmas — que por definição errônea são tratados como verdades inquestionáveis de um grupo, não é um ataque à dignidade ou o caráter da pessoa que os professa. Compreender a religiosidade como um comportamento cultural partilhado permite separar a fé da pessoa, possibilitando a crítica intelectual sem que isso constitua um ataque direto ao indivíduo.
Contudo, a partir de então, mesmo continuando sendo questionada por vários estudantes de várias turmas, sobre minha religião ou até partido político, por orientação da gestão escolar, resolvi não responder a mais ninguém sobre isso, para evitar mais difamações caluniosas, perseguições. (Inclusive me difamaram de prostituta numa dessas denúncias caluniosas contra minha pessoa, o que só demonstra o nível que a a perseguição de fundamentalista pode chegar, para tentar silenciar quem pensa diferente).
A retaliação: A Bíblia como Código Penal
A partir daí, a minha liberdade de cátedra deu lugar à perseguição. Fui alvo de condenações severas, sob o argumento de que eu “não poderia expor minha cosmologia”, e que eu deveria apenas focar no conteúdo da aula. Contudo, a mesma direção escolar que se preocupava em me ordenar a somente seguir o conteúdo escolar, para não expressar qualquer opinião pessoal sobre nada, mesmo quando alunos perguntam, não se preocupou em nenhum momento por realizar cinco reuniões em menos de um mês, me retirando de sala de aula, interrompendo meu trabalho docente, atrapalhando o conteúdo didático dos estudantes, para tratar do mesmo problema que já estava resolvido desde a segunda reunião.
O que demonstra que de fato a preocupação não é sobre a importância da aprendizagem dos estudantes conforme prevê a matriz curricular, e sim sobre o temor dos fundamentalistas religiosos em ver seus filhos e filhas em contato direto com uma professora que não professa fé na religião dominante, pois temem que seus filhos podem perder suas crenças, ao terem contato com alguém que pensa diferente. Veja que nunca se preocupam se no Ensino Religioso estão ensinando apenas os dogmas e crenças dessa mesma religião dominante, aí a convivência é total.
Inclusive numa reunião com mães, uma delas manifestou repúdio ao fato de eu ensinar os estudantes a valorizar a diversidade cultural e religiosa nas disciplinas de Ensino Religioso. Talvez por isso a gestão escolar tenha tirado da minha grade horária tais disciplinas. O que pra mim foi um alívio não ter mais que tratar desses temas.
Enfim, foram diversas reuniões que mais pareciam um tribunal da “Santa Inquisição”, com muitos apontamentos, gritos, condenações, sem nenhuma preocupação que os estudantes ficaram sem professor em sala de aula, afinal a reunião é mais importante que as aulas de história.
Tive minha liberdade de cátedra ferida sob a premissa de que minha falta de fé era uma ameaça, enquanto a fé da religião dominante era tratada como a única régua permitida. O que me leva a questionar: Será que ainda vivemos uma Estado Teocrático?
Pau que bate em Chico, não bate em Francisco:
A ironia — e a ilegalidade — manifestou-se de forma pública na semana seguinte. Durante uma reunião com pais, mães e estudantes, dia 19/03/26, a mesma direção que não me permitiu mais falar sobre minha descrença utilizou a Bíblia para institucionalizar uma injustiça.
Nessa reunião, estávamos tratando do mal comportamento de alguns alunos da turma. E para justificar um castigo coletivo devido ao mau comportamento de alguns alunos, a direção da escola citou o provérbio bíblico de que “os justos pagarão pelos injustos”. Nesse momento, a direção da escola abandonou a Constituição Brasileira e o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Algumas mães de alunos e eu também nos contrapomos a esse posicionamento, pois não consideramos justo toda a turma pagar pelos erros de alguns. Como educadora, não pude me calar diante dessas violações e também da violação do Princípio da Intranscendência da Pena — o preceito jurídico de que a punição não pode passar da figura do infrator. Punir o inocente pelo erro do outro não é educar; é tiranizar.
Não me calei, pois defendo que punir coletivamente todos os alunos pelos erros de alguns é ferir diretamente o princípio da Intranscendência da Pena, previsto implicitamente no Art. 5º, XLV da Constituição, que impede que a punição ultrapasse o infrator.
Como educadora, entendo que castigo coletivo é ilegal, e pode levar a mais revoltas e caos no ambiente escolar, pois os alunos que se comportam bem ficarão desmotivados e revoltados aos serem punidos injustamente, e os alunos que se comportam mal irão continuar assim, ao verem que não recebem a devida consequência por seus atos inadequados.
Enfatizo que há alguns anos atrás eu já havia reclamado do fato de terem punido coletivamente uma turma de estudantes inteira a ficar sem recreio, porque um dos estudantes estourou balões na sala dos professores. Além da punição coletiva, deixar estudante sem recreio é totalmente ilegal, anti Ético e contraproducente.
Diante dos meus questionamentos anteriores e atuais atos arbitrários similares, o que pode ser motivo pra toda essa situação ser tratada de forma tão exagerada, é clara e cotidiana a insatisfação da gestão escolar com minha presença, várias vezes ouço e vejo mensagens no grupo com falas como:
“Quem está reclamando, quem não está satisfeita, pode ir embora”.
O Palanque do Assédio:
Nessa mesma reunião de 19/06/26, ao manifestar minha discordância técnica e legal contra o castigo coletivo, fui vítima de um espetáculo de abuso de poder. Diante de toda a comunidade escolar ali presente, sofri assédio moral e fui retirada da sala de reuniões de pais e mães. A mensagem da direção foi clara: na escola do dogma bíblico, a lei e o contraditório não têm espaço.
Para culminar a retaliação, fui submetida a uma carga horária abusiva. Como “punição” por minha postura, a diretora ordenou que eu fosse trabalhar dando aula fora da minha grade horária. Uma tentativa vã de me desgastar fisicamente e psicologicamente, após terem falhado em me silenciar intelectualmente.
Ouvi essas palavras: Você está só atrapalhando, vai trabalhar, aquela turma é seu horário. Eu afirmei que não era, pois era minha Hora de Atividade e havia sido convocada para essa reunião. Mas mesmo assim, fui ordenada a dar aula pra uma turma sem qualquer previsão de horário ou planejamento pedagógico para tal. Como se uma professora estar numa reunião de pais não fosse trabalho.
A esse respeito, enfatizo que assédio moral, humilhação em público e a imposição de trabalho fora do horário configuram como desvio de função/abuso de autoridade, assim como ilícitos trabalhistas e civis.
Silenciamento anti-democrático
Inclusive na sequência produzi dois artigos para tratar desse tema, para trazer mais conhecimentos atualizados a toda comunidade escolar sobre ciências humanas, psicologia da educação e previsões legais referentes a esses temas tão pertinentes. Postei tais artigos no grupo de professores, os quais foram imediatamente apagados pela gestão escolar, o que traz o questionamento se isso é um ato claro de silenciamento? Não é permitido falar sobre democracia, psicologia da educação , Estado e educação laica no grupo de professores?
Educação não é Doutrinação
Este relato não é apenas sobre mim, Kelly Cristina Martins, professora de história, graduada numa universidade federal, concursada da Secretaria de Educação do Goiás.
É sobre o perigo de permitirmos que instituições de ensino se tornem tribunais teocráticos, onde quem questiona atos arbitrários, ou quem professa uma cosmologia diversas sofre constantes silenciamentos.
A escola deve ser o lugar onde o filho do religiosos e o filho do ateu aprendem a lei, a ciência e o respeito mútuo. Quando a Bíblia é usada para anular o Código Civil, quando a autoridade escolar atua constantemente para humilhar professor, quem perde não é apenas sou eu como professora de História — é a própria democracia brasileira, é a educação pública.
Peço aos inquisidores e censores que também façam arguição a outros estudantes sobre meu trabalho docente em sala de aula, sem dar ouvidos apenas aos religiosos fundamentalistas, que não sabem ouvir questionamentos a suas crenças e dogmas.
E realmente, depois de todos esses episódios, sinto me totalmente desmotivada a continuar trabalhando na educação.
Abaixo tragos os artigos que foram censurados pela direção da escola no grupo de professores sobre esses temas, para que toda a comunidade escolar tenha plena ciência de seus direitos e deveres.
Conhecimento Liberta.
ARTIGO 1
A Escola contra a Cidadania: Quando o Coletivo Paga pelo Erro Individual‼️
A aplicação de punições coletivas no contexto escolar, baseada na premissa bíblica e religiosa de que o “justo paga pelo injusto”, é uma prática pedagógica ineficaz e prejudicial, capaz de gerar um ambiente de caos, desmotivação e injustiça, em vez de disciplina.
Quando professores punem toda uma turma pelo mau comportamento de alguns alunos, inverte-se a lógica da responsabilidade individual, criando um sentimento de revolta nos estudantes que prezam pelo bom comportamento e, simultaneamente, transmitindo a sensação de impunidade aos verdadeiros infratores, que não sofrem consequências pessoais por seus atos.
A curto prazo, a punição coletiva pode até silenciar a turma, mas a longo prazo, ela corrói o vínculo de confiança entre alunos e professores. Os alunos bons, ao se verem injustiçados, perdem a motivação para agir corretamente, já que o comportamento exemplar não é valorizado.
Por outro lado, os alunos indisciplinados, ao perceberem que seus pares arcam com as consequências de suas ações, não sentem necessidade de mudar sua conduta, perpetuando o ambiente de desordem.
Além do dano pedagógico, essa prática educacional distorce o princípio legal brasileiro da responsabilidade pessoal. A legislação brasileira, baseada no artigo 5º, inciso XLV, da Constituição Federal, determina que “nenhuma pena passará da pessoa do condenado”.
Isso significa que a punição não pode ultrapassar o infrator, sendo inconstitucional responsabilizar um grupo inteiro por um erro cometido por indivíduos específicos.
Essa abordagem coloca a escola na contramão dos direitos fundamentais, gerando uma cultura de arbitrariedade distante da realidade legal do país, que visa a educação para a cidadania e a responsabilidade civil e penal individualizada.
A punição coletiva, inclusive, é considerada uma prática arbitrária em diversos contextos jurídicos e éticos. A escola deve ser um espaço que ensina a justiça, não o revanchismo.
Portanto, a punição coletiva deve ser banida do ambiente escolar. A verdadeira disciplina é pedagógica e focada no diálogo, na mediação de conflitos e na responsabilização específica de quem cometeu a falta, garantindo o direito à educação de qualidade para todos, sem injustiças.
A educação eficiente é aquela que prepara o aluno para a responsabilidade, e não para a submissão a punições arbitrárias.
Quem quer usar a bíblia como parâmetro moral, leia corretamente e saiba que ela também ensina:
Ezequiel 18:20: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele.
De qualquer forma, num estado laico, onde a escola pública deve primar pela educação laica, crenças religiosas, versículos bíblicos, de uma religião criada para criar regras comportamentais de uma sociedade arcaica e primitiva, não devem ser usadas hoje no contexto de um Estado Laico.
Devemos nos pautar pela nossa legislação vigente, e pelos estudos de psicologia de educação, para formar futuros cidadãos conscientes de sua responsabilidade.
Em suma, não devemos pautar nossas regras e valores baseados em crenças religiosas de nenhuma religião. A Educação Pública deve ser Laica.
Kelly Cristina Martins
Professora de História pela UNB
Educadora Ambiental
ARTIGO 2
O Mito do “Apanhei e Sou uma Boa Pessoa”: Uma Análise da Psicologia da Educação ‼️
A utilização da violência física como ferramenta pedagógica é um tema superado pela psicologia da educação moderna, que demonstra que o castigo corporal é ineficaz e prejudicial ao desenvolvimento humano.
No ambiente escolar, cabe ao professor o papel de mediador do conhecimento científico e ético, o que torna inadmissível o incentivo a práticas agressivas no ambiente familiar.
O uso da força não educa; ele apenas interrompe um comportamento pelo medo, sem promover a reflexão ou a internalização de valores morais.
Sob a ótica da Psicologia do Desenvolvimento, o uso de palmadas ou espancamentos compromete o vínculo de confiança entre pais e filhos. De acordo com a Teoria do Apego, crianças que sofrem agressões tendem a desenvolver insegurança, ansiedade e baixa autoestima.
O professor que estimula tais práticas ignora que a violência física ensina que a força é a única forma de resolver conflitos, perpetuando um ciclo de agressividade que a criança levará para suas relações sociais e escolares.
Além disso, é fundamental que o docente evite o uso de anedotas pessoais, como a ideia de que “apanhei e me tornei uma boa pessoa”, para validar a violência. Esse tipo de raciocínio é um erro lógico conhecido como viés de sobrevivência: o indivíduo ignora os traumas e cicatrizes emocionais que carrega, atribuindo seu sucesso a um método punitivo, quando, na verdade, prosperou apesar dele.
Ao relatar sua experiência pessoal de forma positiva em uma reunião, o professor confunde sua história individual com uma verdade científica, prestando um desserviço à comunidade.
A violência física no ambiente doméstico atua como um laboratório de comportamento para a criança, ensinando-lhe precocemente que a força é o método legítimo e eficaz para resolver conflitos e obter controle.
Quando os pais utilizam o castigo corporal, o aluno internaliza o modelo de “agressor e vítima”, tendendo a reproduzir essa dinâmica na escola por meio do bullying ou da reatividades agressiva com colegas e professores.
Esse aprendizado se estende para a vida adulta e para a sociedade, criando cidadãos que, por falta de repertório emocional e habilidades de diálogo, recorrem à violência nas relações interpessoais e sociais, perpetuando um ciclo onde a dor substitui o respeito e a força se sobrepõe à razão.
Para substituir a cultura da violência por uma educação consciente, os pais devem estabelecer uma autoridade baseada no diálogo e no vínculo afetivo, explicando de forma clara as expectativas e a importância da responsabilidade com os estudos e com as tarefas do lar.
Em vez de punições físicas que geram revolta, a disciplina deve ser aplicada por meio de consequências lógicas: ao não cumprir com seus deveres, a criança perde temporariamente o acesso a confortos e privilégios, como o uso de telas, TV ou celular.
Essa abordagem ensina que a liberdade e o lazer são conquistados através do compromisso, fortalecendo a autonomia do aluno e mostrando que o respeito e a organização são pilares fundamentais para a convivência em sociedade, sem a necessidade de recorrer ao medo ou à agressividade.
Nenhum educador deve incentivar de qualquer forma o uso de violência pelos pais contra seus filhos. Uma reunião escolar é um espaço de orientação coletiva e deve ser pautada pela ética profissional. Quando um educador utiliza o púlpito da escola para normalizar o espancamento, ele deslegitima o papel da instituição como promotora dos direitos da criança e do adolescente.
A psicologia escolar defende a Disciplina Positiva e o Diálogo como caminhos para estabelecer limites, mostrando que a autoridade deve ser construída pelo respeito e pelo diálogo, e não pelo temor da dor física.
Em suma, o papel do professor é ser um agente de transformação e proteção. Ao invés de reforçar práticas arcaicas e violentas, ele deve instrumentalizar os pais com estratégias de manejo de comportamento baseadas na empatia e na firmeza respeitosa.
O exemplo a ser dado em uma reunião de pais deve ser sempre o da educação que liberta e humaniza, garantindo que a escola seja um ambiente seguro e que a infância seja preservada de qualquer forma de abuso.
Kelly Cristina Martins
Professora de História pela UNB
Educadora Ambiental
(Fui espancada na infância, e não considero que esse método educacional me tornou uma boa pessoa, mas sim os bons professores que me ensinaram o que é respeito, e claro, estudando psicologia da educação na Universidade. Obs. tive que fazer terapia com psicólogo pra curar essas feridas e não repetir esse ciclo de violência com meus filhos. Pais e mães que violentam seus filhos apenas quebram vínculos emocionais com suas crianças, e geram traumas. Depois não reclamem quando seus filhos forem adultos e quiserem se manter distantes dos pais, ou até cometerem violências contra país idosos, porque foi assim que aprenderam a resolver problemas: com uso de violência).


